Um "aparato" de louvor à terra. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.
Um "aparato" de louvor à terra. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

O passado é memorial, imprescindível, absolutamente essencial, sobre o qual se deve construir o futuro. Ele é fundamental, e redunda dentro de nós. Mas os tempos são outros, e odeiam o passado. Uma pena.

O significado das coisas é fenomenológico; é como os efeitos climáticos e sua mutação ao longo do tempo. Há 30 anos, por exemplo, dormir sem ventilador e sem ar-condicionado era bem normal; hoje, é apenas tolerável – quando não, insuportável. O tempo muda até mesmo as suas próprias feições, quanto mais muda as nossas. A casca do ovo emborcada e fincada no canteiro, autêntico “aparato” de louvor à terra, também era uma espécia de “encanto” para afugentar o agouro das plantas; e a canoa ‘cansada’, que era a representação do “fadiga material”, e virava canteiro auspicioso e frondoso. Ambas as figurações – e tantas outras – significavam muitas coisas, hoje, todavia, significam nada para a maioria. Isso é o efeito ‘semântico’ do tempo sobre o sentido das coisas.

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O “canteiro de canoa” era a representação do “cansaço material”. | Foto: Divulgação/PVA.

Não há paridade entre as coisas e o tempo, nem entre nós e as eras. Na promoção da argumentação, você pode inventar um monte de teorias sobre a casca de ovo no canteiro, as garrafas coloridas cheias de líquidos cravadas emborcadas na terra, e a formatação quase equilateral dos cercados nos quintais. O fato é que até mesmo muitos de nós, que nascemos e crescemos neles – nos quintais – fomos afetados pela poderosa imposição da semântica, e esquecemos quase por completo o significado das coisas.

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As garrafas coloridas da Dona Marly. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

O tempo, em meu juízo, se configura como uma mera sugestão arquetípica de profeta frustrado, que se esqueceu do apostolado verdadeiro. O tempo é um senhor senil; um velho cacique que defraudou o seu povo e feriu no âmago o sentido e a alma do Indigenato. As coisas são significativas, e o passado também é, mas eles parecem conjuntos frasais escritos na lousa áspera, com giz apodrecido, apagados com a força furiosa da mão canhota.

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As cascas de ovo emborcadas. “Encanto” para repelir o agouro das plantas. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Acho mesmo é que as lições pouco esclarecedoras do tempo estão nos “emburrecendo” a todos. Não sabemos – e nem queremos mais – compreender os “porquês” de termos que apagar as evidências extraordinárias das nossas raízes. O passado é memorial, imprescindível, absolutamente essencial, sobre o qual se deve construir o futuro. Ele é fundamental, e redunda dentro de nós. Mas os tempos são outros, e odeiam o passado. Uma pena.

Da Redação: Paulo Queiroz, para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio TV Cultural da Amazônia.

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Paulo Queiroz

Escritor, poeta, editor, antropólogo e professor universitário. Comendador pela Câmara Brasileira de Cultura (CBC). Radialista e jornalista: MTb 0001421-DRT/AM, Matrícula nº 3857. Presidente da Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-Amazônicos (ABEPPA) e da Academia de Letras, Ciências e Culturas da Amazônia (ALCAMA). Membro Honorário da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas (ACLJA), da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas (ALCEAR), da Associação dos Escritores do Amazonas (ASSEAM), da Academia de Letras do Brasil (ALB/AM), entre outras. Professor de Ciência Política, Antropologia Jurídica, Metodologia do Estudo Jurídico, TCC, Filosofia do Direito, Iniciação Científica, Ética e Deontologia Jurídica e Direito Constitucional. Psicanalista Forense em formação.

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