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A FÉ E A VIDA

Cresci num lar cristão. Mamãe Naha era devota de Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro. Invariavelmente eu a via de joelhos em frente a um pequeno altar em nossa casa, acendendo suas velas e rezando o Pai Nosso, a Ave Maria, fazendo ou cumprindo promessas pelas graças alcançadas. Papai Julian, por seu turno, nas costumeiras preleções e contações de histórias que nos fazia, também a mim e a meus irmãos, na hora do almoço, sempre nos passava alguma instrução moral inspirada na Bíblia.

Aprendi desde cedo, portanto, que havia alguém superior, invisível aos meus olhos, mas onisciente, onipotente e onipresente, ao qual, além dos meus pais e de outras pessoas amigas, eu poderia recorrer no caso de aflições, quando estivesse atravessando um momento difícil ou, mesmo, diante de uma tragédia, de algo aparentemente insuperável.

O tempo passou, as responsabilidades chegaram e começaram a aparecer os desafios afetivos, profissionais, de saúde, as expectativas, as angústias, as frustrações, as perdas e dezenas de outros problemas, de resto comuns a todos nós, embora com alto grau de dificuldade ou de letalidade para muitos, que vivemos nessa vale de lágrimas e que, eventualmente, não estamos preparados, não fomos alertados e não sabemos acionar os mecanismos espirituais necessários para acesso à divindade, a única que nos poderá auxiliar, nos inspirar ou nos confortar, para que sigamos adiante, nos episódios mais dramáticos de nossas vidas.

Eu mesmo demorei muito para encontrar o caminho, bati muito a cabeça, sofri bastante e quase sucumbi. A matéria, por ser o veículo através do qual conhecemos e interagimos com o mundo físico, é muito forte. Nossos desejos, nossas paixões, nossas necessidades primitivas, na maioria das vezes, nos levam a tomar decisões impulsivas e egoísticas que, no fundo e no fim, acabam por prejudicar os nossos relacionamentos e a nos impor derrotas que julgamos irreversíveis, eis que colocamos as nossas esperanças, nossas convicções e expectativas no plano meramente sensorial em que estamos inseridos. Acabamos por acreditar que, para problemas terrenos, só há soluções terrenas.

Isso é um erro, aprendi. Para cada obstáculo que enfrentamos aqui, não importa o tamanho, há uma solução espiritual, que somente é alcançável por quem busca uma aproximação definitiva com Deus. É difícil? Sim, é. É difícil crer no que os nossos sentidos são incapazes de detectar, de ver, de ouvir… E só existem duas formas de transpor esse véu e estabelecer uma ligação (ou religação) da criatura com o Criador: pela revelação mística, que se dá, em geral após uma grande provação, uma grande dor, mas que produz estupendas modificações em muitas vidas; ou pela persuasão racional, pela compreensão de que a verdade das coisas desse mundo, de nossa condução positiva e saudável nessa esfera de existência é condicionada pelo Invisível que habita em nós, o qual, finalmente descoberto e assimilado, dominará os nossos instintos e ditará os nossos melhores rumos no sentido da paz e da felicidade, aquilo que chamo de o reino dos céus em nós… Num caso e n’outro, todavia, é preciso acreditar, ter fé. Sem isso, todo esforço será em vão. Deus seja louvado.

Da Redação:

Júlio Antônio Lopes para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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