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A literatura polimórfica de José Herculano da Nóbrega: um nordestino exageradamente amazônico

Os volumosos cabelos – de todo-alvos – de José Herculano da Nóbrega traduzem a brancura de sua escrita, quanto à clareza intencional de suas formas. Um escritor para ser capaz de interpretar o mundo de formas diferentes a partir da sua escrita, tem que incorporar o mimetismo camaleônico, observando a existência humana além da superfície plana das coisas. É preciso ser sagaz na criação e na inspiração literária. Isso Nóbrega faz muitíssimo bem.

O PVA e sua equipe viram as portas da casa do escritor escancaradas para uma entrevista histórica, onde pudemos documentar momentos especiais de uma vivência que existe para escrever tudo o que os olhos corpóreos e mentais contemplam, e nós invadimos o lugar. O Programa “Autores da Amazônia”, da Rádio TV Cultural da Amazônia e do Portal Voz Amazônica, foi passar umas horas dialogando com José Herculano da Nóbrega, lá na rua dos fundos pictóricos da belíssima Igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Ali mora há mais de 40 anos um pensador brasileiro que elegeu o tradicional e gostoso bairro do Parque 10 para residir.

Ele é um escritor plural, que impõe transversalidade à sua escrita polimórfica. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Na dormência daquela tarde, e no “arretamento” de uma noite “sextática”, o também escritor Paulo Queiroz, jornalista, radialista e apresentador do Programa, foi abraçar o seu confrade de Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-Amazônicos (ABEPPA) José Herculano da Nóbrega, e ter com ele uma marcada conversar afável sobre as muitas obras literárias que o autor escreveu ao longo de sua vida até aqui.

Inobstante a paisagem temática que existe lá na casa dos Nóbrega, onde as plantas só faltam falar, e há muitas delas, tudo mais inspira o autor entrevistado. Um ambiente remansado, repletos de vegetais vivos, dignamente cuidados como seres companheiros, em acolhedor cenário. Aquele lugar é emblemático, personificado, sem ser estereotipado, mas que exprime a ideia energética de ‘casa de intelectual’ livre, desnudo da usura, do apego às ‘pedras que fazem tropeçar’. Um lugar simples e mágico no sentido mais lato do sentir espiritual.

A Dona Maria da Nóbrega, senhora distinta que carrega a bonança na voz e nas atitudes, e que escreve com ele uma história matrimonial de 50 anos. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

A Dona Maria da Nóbrega, senhora distinta, que carrega a bonança na voz e nas atitudes, e que escreve junto com ele uma história de vida matrimonial que está beirando o jardim das bodas de ouro, em novembro deste ano. É uma esposa-parceira, mais que uma simplória companheira da mesma sorte ou destino de José Herculano da Nóbrega. Ela é uma sombra amorosa que guarda e que eleva a figura de um templário da literatura universalizada, produzida na particular maneira de um escritor que foge do lugar-comum. Dona Maria, que completará 74 anos em junho, é a protetora e a matriarca das virtudes de uma família que vislumbra nas filhas Suely e Sheila, e nos três netos e uma neta, o sentido de futuro bom e sossegado.

José Herculano e Dona Maria da Nóbrega vislumbram nas filhas Suely e Sheila, e nos três netos, e na neta, o sentido de futuro bom e sossegado. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

O seu Nordeste amazônico

Hoje com 78 anos, o juazeirense que já foi muito pobre, se tornou artífice do ouro, e se sempre lembra de quando saiu bem jovem lá do seu torrão de nascimento para percorrer alguns lugares deste imenso país, acabou encontrando em Manaus o estanque dos seus passos pelo mundo. Ele veio para incorporar a poderosa corrente influencial dos cearenses à gigantesca cultura amazônica. Veio se domiciliar aqui para construir os seus sentimentos familiares e literários históricos, produzir riquezas artísticas, cujo resultado se mostra na concepção de várias obras que a equipe do PVA sentiu desmedido orgulho em retratar e registrar para sempre.

A Diretora de Redação do PVA, Synthia Queiroz, arrumando as obras do escritor José Herculano da Nóbrega. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

O ourives habilidoso do metal precioso, hoje é um produtor de joias literárias. A Amazônia é o ‘berço’ da literatura de José Herculano da Nóbrega. A estrutura de seu pensar literário não se embarga em uma só vertente criativa, e o Amazonas serve de território fomentador da criação do escritor, que nunca pretende sair do nosso meio. Em terras amazônicas nós dizemos “já era!”. E ele está visceralmente integrado na história do Amazonas, como um autor que trabalhou muitas décadas para gerar literatura em nosso chão. Ele está plantado neste imenso mundo amazônico, vivo, lucido, e com um poderoso legado.

Decano de muitas obras

Ele é um escritor plural, que impõe transversalidade à sua escrita polimórfica. “Enjaule Poesia” e “Alma Deslumbre & Poesia”, são títulos autorepresentativos: um trilhar de versos concebidos madrugadas a fio, dias a fio, anos a fio – a exemplo das demais obras do autor –, que fazem de Nóbrega um poeta de afirmações vivas, declamativas e fortes.

“Haicai Aqui” e “Presenciar: Haicai Sazonal Brasileiro” outorgam ao escritor o caráter da diversidade autoral, dignificando a invenção literária japonesa que encanta o mundo com a brevidade contemplativa da expressão da vida. No campo provocador do romance, José Herculano da Nóbrega nos ofertou de seu rico baluarte, feitos criativos de grande porte conteudístico, que merecem leitura e prestígio: “Carta de Deus ao Homem do Planeta Terra” e “Filho na Terra Criado nas Estrelas”. Este último, tendo concorrido ao Prêmio Jabuti.

Nóbrega não consegue esconder a sua sanha com os produtores de cultura e literatura do Amazonas, porque eles se politizaram ao extremo. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

José Herculano da Nóbrega já escreveu muito, e ao PVA ele disse que não tem mais nenhum projeto em mente, porque decidiu por si só, e por decepções reiteradas, descontinuar o processo produtivo que marca a sua vida de escritor. Além disso, não consegue esconder a sua sanha com os produtores de cultura e literatura do Amazonas, porque se politizaram ao extremo ao ponto de deixar claro que nunca foram homens do povo, mas do poder. E ele está certo: para muitos que se dizem fazedores de palavras, artistas, trabalhadores da cultura, somente o poder maquinal das governanças os eleva, pois a sua força pífia nunca seria capaz de fazer isso, pois só com o poder nas mãos, como seres que se vendem, é que se sentem realizados e úteis.

O escritor nunca para

A entrevista de José Herculano da Nóbrega ao PVA foi uma dádiva imprescindível para o jornalismo amazônico, porque acrescenta ao prazer da práxis profissional o gosto de retomar com tudo essa deliciosa maneira de resgatar as coisas dos grandes pensadores da nossa terra. O jornalista Paulo Queiroz, vez ou outra, e aqui e acolá, como quem não quer nada, indagava a Nóbrega sobre os projetos futuros em sua escrita criativa. O entrevistado renovava – sempre com o mesmo sorriso cismado – que não pretende mais lançar nenhum livro. Quer apenas prosseguir na sua peculiar luta de divulgar e fazer conhecer ainda mais o seu grandiosa e respeitável trabalho já consolidado.

Quanto a isso, o entrevistador faz questão de ressaltar que nós não precisamos de muita explicação para deixar claro que a literatura é um vício quase inevitável e que ainda não tem ‘remédio’ para a mitigação de seus efeitos. Não é um vício que mata, mas dá vida, mas que ‘aprisiona’ o ser em patamares absurdos de carência produtiva, de vontade de escrever. Herculano da Nóbrega, que não ligava muito para o microfone, porque gosta de conversar olhando nos olhos, e que o entrevistador teve muitas vezes que posicionar o microfone em sua boca, falou muito conosco, à vontade, livremente, empolgantemente. Entrevista gostosa, divertida e também lúdica.

Herculano da Nóbrega concedendo entrevista imprescindível ao jornalismo. Com o escritor e jornalista Paulo Queiroz, no Programa “Autores da Amazônia”, da Rádio Cultural da Amazônia e do Portal Voz Amazônica. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

Quase todos os grandes escritores afirmam que não pretendem mais escrever, depois que produzem tantos livros. Essa é uma ‘mentira’ um tanto burlesca, porque contradiz o próprio escritor quando ele ‘surta’ da necessidade de fazer muito mais do que já fez, enquanto viver. E é isso que esperamos do grande escritor José Herculano da Nóbrega, que a sua decisão suspensiva do fazer literário seja apenas uma ‘mentirinha transitória’ e despretensiosa, e que essa sua mente ainda lúcida e privilegiada de criações possa escrever e produzir ainda mais. Ele está vivo! Isso é maravilhoso!

Um amante inveterado de Manuel Bandeira, que é monstro mestre da literatura pátria, e que é dono dos elementos fundamentais da poesia brasileira. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

José Herculano da Nóbrega, um amante inveterado de Manuel Bandeira, esse brasileiro que colocou nas mãos dele os “Meus Poemas Preferidos”, e que é monstro mestre da literatura pátria, e que é dono dos elementos fundamentais da poesia brasileira, dos versos deslumbrantes, da métrica avassaladora, da estrofe sedutora, da rima cativante e do ritmo esperançoso, não pode se coadunar com a catastrófica decisão de parar de conceber ‘filhos literários’.

José Herculano da Nóbrega é autor de muitas obras e membro efetivo da Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-Amazônicos (ABEPPA). | Foto Paulo Queiroz/PVA.

Esse autor precioso ainda tem muito a escrever, mesmo já tendo escrito tanto. Tem muito a viver, mesmo achando que já viveu bastante. Tem muito ainda a abraçar, ainda que ache que já abraçou bastante. Tem muito ainda a ser prestigiado, mesmo quando retrata em seus queixumes o desprestígio da sociedade com os escritores, e a indiferença dos escritores com os próprios escritores, dos poetas com eles mesmos e com os outros. Tem muito a estar conosco, construindo a história dessa terra através de suas obras, semeando o orgulho na atmosfera extraordinário da literatura brasileira.

O autor já escreveu muito, e disse que não tem mais nenhum projeto em mente, porque decidiu por si só descontinuar o processo produtivo que marca a sua vida de escritor. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

Extraordinário como é José Herculano da Nóbrega, ele recebe de nós do Portal Voz Amazônica e da Rádio Cultural da Amazônia a nossa efusiva gratidão pelo carinho com que declarou o seu amor à Amazônia e à literatura, e recebe de todos nós, os amazonenses, os brasileiros, os povos, votos inumeráveis de longevidade, de saúde, de inspiração, de prosperidade e de amor. O Amazonas ama e aplaude o admirável escritor José Nóbrega. A Amazônia ama e consagra o escritor Herculano da Nóbrega. O Brasil ama e espera muito ainda de José Herculano da Nóbrega.

Assista à entrevista na íntegra acessando no vídeo abaixo:

Da Redação:

Paulo Queiroz para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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