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A PROFESSORA

Vou ocupar este espaço, nesta semana, para homenagear aquela que dedica sua vida a tomar nas mãos, e até no colo, filhos alheios para introduzi-los nos primeiros caminhos da busca e da construção do Conhecimento. Podia falar do professor, cujos méritos na formação da personalidade, do caráter, não são menores, mas é que não costuma ser do homem a responsabilidade do magistério nos anos iniciais do longo tempo da vida em que frequentamos a escola. Quando é, com eles não se dá diferente. As primeiras letras, sua identificação e junção para formar as primeiras silabas, os contatos primários com os números e sua valoração, são luzes normalmente acesas por professoras, heroínas na doação de afeto, de carinho, de atenção indispensáveis a motivar os jovens iniciantes a permanecerem na lida do aprendizado que se vai estender vida afora.

Na creche ou nos anos iniciais, que na minha época eram 1º ano A, B e C, mais que uma transferência de conhecimento, o que se faz no ambiente da escola é um encontro diário, prolongado, de puro amor, com feição maternal, e é como se a professora passasse a ter como filho seu cada um dos alunos que conhece no dia da primeira aula. E com tal sentimento, é como se abrisse o pano de boca do grande teatro da vida para os que nela começam a caminhar, descortinando o futuro.

Vocacionada para a paciência, a compreensão e o acolhimento, a “Tia” costuma ser exemplo de meiguice, de concórdia, sempre disposta a perdoar, ensinando com a inteligência tanto quanto com o coração. E é que o carinho envolvido nessa relação que há na professora orgulho incomparável ao constatar o sucesso daqueles que iniciou, para quem acendeu os primeiros focos do saber.

São doações diárias que se enriquecem ao longo de um ano e que muitas vezes se perpetuam no tempo. São trocas de aprendizado, permutas de gestos de atenção que só as mães conseguem substituir e suplantar.

Ao ensinar as primeiras letras, as primeiras construções, as formas iniciais de relacionar fatos e coisas da vida cotidiana, o trabalho da professora confunde-se com acender os primeiros fachos, primeiros archotes de tantos que haverão de ser acesos no caminho da vida, igualando-se ao gesto maternal do dar as mãos para garantir o equilíbrio nos primeiros passos. Uma construtora de sóis que aquecem e iluminam a mente e a alma dos pequeninos.

Depois, formatadas as bases, fincadas as fundações, a edificação que se segue guarda a solidez do trabalho inicial e é novamente a professora – e agora já também o professor, muitas vezes – quem vai contribuir, com o carinho igual, para a escolha dos materiais a serem usados na obra, na forma de sua utilização e na percepção que se renova do que há de mais moderno, de mais novo e mais interessante para o caminho que cada um escolhe ou é conduzido a seguir.

Qualquer que seja a profissão, do catador de latas ao médico, do gari ao advogado, do digitador ao analista, do comerciário ao governador, do motorista ao presidente, por trás de cada escolha, de cada via, de cada ganho há a contribuição inestimável, às vezes até já esquecida, ainda que por momentos ou até pelas vaidades novas dos que não conseguem manter a humildade, de quem acendeu os primeiros faróis e ligou os primeiros neons, o LEDs iniciais que iluminaram o caminho percorrido. Indispensavelmente!

Foi assim com Sebastiana Braga que no dia de ontem, 18, teria completado, nestes 2021, 113 anos de vida terrena, se não tivesse sido convocada pela Divindade, em 2006, para o magistério em planos outros do universo. Professora desde sempre, por vocação e por convencimento, diplomada na Escola Normal, foi trabalhar no Janauacá, solteira e sozinha, de onde retornou para encontrar o companheiro com quem construiu uma vida de mais de meio século e que foi professora até os 98 anos, enquanto a vida lhe permitiu. Sua existência, disse o filho José, “foi luz permanente a iluminar muitos caminhos, nossas vidas, muitas vidas” e foi tanto o amor que plantou, digo eu, e que distribuiu, que permanece viva em nossos corações. Foi símbolo da paz e da concórdia, do carinho e do perdão. Mestra da vida, sua saudade é feita de esperança.

Seu aluno, desde as primeiras letras e até o suspiro derradeiro, ousei falar de seu grande amor em uma quase poesia assim:

SEBASTIANA E LOURENÇO

Era o bonde dos Bilhares,

eles trocando olhares

sempre muito comportados,

sorrisos de lado dados,

logo baixavam a vista;

de terno branco, gravata,

ela de normalista,

nem pensar numa bravata.

Era assim que todo dia

o encontro se fazia

jogo de paciência

mera coincidência,

um olhar os despedia,

ele no bonde seguia.

Até que criou coragem,

foi a seu lado sentar-se,

bem no meio da viagem

tempo para se apresentar.

Ela nervosa ouvia

tudo que ele dizia

na verdade, quase nada,

bem pouco se permitia

tinha a voz bem pausada

era uma simpatia.

Em tarde jamais esquecida

o que ali começava,

nenhum dos dois pensava,

era amor para toda a vida.

Grande a ansiedade

para viver novamente

tudo o que, em verdade,

muito a fizera contente.

A hora que não chegava

o tempo que não passava

até que no bonde subiu

ali ele estava, sorriu.

Muitos meses foi assim

conversas de todo dia

era o encontro, enfim,

tudo o que ela queria.

E aí chegou o noivado

com pedido preparado

pra irmã, Dona Maria,

que pais não mais havia.

Viuvez não importava,

três filhos para criar,

do primeiro casamento

não era nenhum tormento

ela muito o amava

e decidiram casar-se.

Cinquenta anos depois

a todos puderam ensinar

segredo da vida a dois:

sempre é possível amar.

A morte os separou,

instantes de muita dor;

pelo tanto que amaram

o quanto se entregaram

decerto Deus os juntou

em novo plano de amor.

Vou ocupar este espaço, nesta semana, para homenagear aquela que dedica sua vida a tomar nas mãos, e até no colo, filhos alheios para introduzi-los nos primeiros caminhos da busca e da construção do Conhecimento. Podia falar do professor, cujos méritos na formação da personalidade, do caráter, não são menores, mas é que não costuma ser do homem a responsabilidade do magistério nos anos iniciais do longo tempo da vida em que frequentamos a escola. Quando é, com eles não se dá diferente. As primeiras letras, sua identificação e junção para formar as primeiras silabas, os contatos primários com os números e sua valoração, são luzes normalmente acesas por professoras, heroínas na doação de afeto, de carinho, de atenção indispensáveis a motivar os jovens iniciantes a permanecerem na lida do aprendizado que se vai estender vida afora.

Na creche ou nos anos iniciais, que na minha época eram 1º ano A, B e C, mais que uma transferência de conhecimento, o que se faz no ambiente da escola é um encontro diário, prolongado, de puro amor, com feição maternal, e é como se a professora passasse a ter como filho seu cada um dos alunos que conhece no dia da primeira aula. E com tal sentimento, é como se abrisse o pano de boca do grande teatro da vida para os que nela começam a caminhar, descortinando o futuro.

Vocacionada para a paciência, a compreensão e o acolhimento, a “Tia” costuma ser exemplo de meiguice, de concórdia, sempre disposta a perdoar, ensinando com a inteligência tanto quanto com o coração. E é que o carinho envolvido nessa relação que há na professora orgulho incomparável ao constatar o sucesso daqueles que iniciou, para quem acendeu os primeiros focos do saber.

São doações diárias que se enriquecem ao longo de um ano e que muitas vezes se perpetuam no tempo. São trocas de aprendizado, permutas de gestos de atenção que só as mães conseguem substituir e suplantar.

Ao ensinar as primeiras letras, as primeiras construções, as formas iniciais de relacionar fatos e coisas da vida cotidiana, o trabalho da professora confunde-se com acender os primeiros fachos, primeiros archotes de tantos que haverão de ser acesos no caminho da vida, igualando-se ao gesto maternal do dar as mãos para garantir o equilíbrio nos primeiros passos. Uma construtora de sóis que aquecem e iluminam a mente e a alma dos pequeninos.

Depois, formatadas as bases, fincadas as fundações, a edificação que se segue guarda a solidez do trabalho inicial e é novamente a professora – e agora já também o professor, muitas vezes – quem vai contribuir, com o carinho igual, para a escolha dos materiais a serem usados na obra, na forma de sua utilização e na percepção que se renova do que há de mais moderno, de mais novo e mais interessante para o caminho que cada um escolhe ou é conduzido a seguir.

Qualquer que seja a profissão, do catador de latas ao médico, do gari ao advogado, do digitador ao analista, do comerciário ao governador, do motorista ao presidente, por trás de cada escolha, de cada via, de cada ganho há a contribuição inestimável, às vezes até já esquecida, ainda que por momentos ou até pelas vaidades novas dos que não conseguem manter a humildade, de quem acendeu os primeiros faróis e ligou os primeiros neons, o LEDs iniciais que iluminaram o caminho percorrido. Indispensavelmente!

Foi assim com Sebastiana Braga que no dia de ontem, 18, teria completado, nestes 2021, 113 anos de vida terrena, se não tivesse sido convocada pela Divindade, em 2006, para o magistério em planos outros do universo. Professora desde sempre, por vocação e por convencimento, diplomada na Escola Normal, foi trabalhar no Janauacá, solteira e sozinha, de onde retornou para encontrar o companheiro com quem construiu uma vida de mais de meio século e que foi professora até os 98 anos, enquanto a vida lhe permitiu. Sua existência, disse o filho José, “foi luz permanente a iluminar muitos caminhos, nossas vidas, muitas vidas” e foi tanto o amor que plantou, digo eu, e que distribuiu, que permanece viva em nossos corações. Foi símbolo da paz e da concórdia, do carinho e do perdão. Mestra da vida, sua saudade é feita de esperança.

Seu aluno, desde as primeiras letras e até o suspiro derradeiro, ousei falar de seu grande amor em uma quase poesia assim:

SEBASTIANA E LOURENÇO

Era o bonde dos Bilhares,

eles trocando olhares

sempre muito comportados,

sorrisos de lado dados,

logo baixavam a vista;

de terno branco, gravata,

ela de normalista,

nem pensar numa bravata.

Era assim que todo dia

o encontro se fazia

jogo de paciência

mera coincidência,

um olhar os despedia,

ele no bonde seguia.

Até que criou coragem,

foi a seu lado sentar-se,

bem no meio da viagem

tempo para se apresentar.

Ela nervosa ouvia

tudo que ele dizia

na verdade, quase nada,

bem pouco se permitia

tinha a voz bem pausada

era uma simpatia.

Em tarde jamais esquecida

o que ali começava,

nenhum dos dois pensava,

era amor para toda a vida.

Grande a ansiedade

para viver novamente

tudo o que, em verdade,

muito a fizera contente.

A hora que não chegava

o tempo que não passava

até que no bonde subiu

ali ele estava, sorriu.

Muitos meses foi assim

conversas de todo dia

era o encontro, enfim,

tudo o que ela queria.

E aí chegou o noivado

com pedido preparado

pra irmã, Dona Maria,

que pais não mais havia.

Viuvez não importava,

três filhos para criar,

do primeiro casamento

não era nenhum tormento

ela muito o amava

e decidiram casar-se.

Cinquenta anos depois

a todos puderam ensinar

segredo da vida a dois:

sempre é possível amar.

A morte os separou,

instantes de muita dor;

pelo tanto que amaram

o quanto se entregaram

decerto Deus os juntou

em novo plano de amor.

Da Redação:

Lourenço Braga para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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