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ASSASSINATO DO NEGRO JOÃO ALBERTO

20 de novembro de 2020, dia consagrado à consciência negra, o Brasil acordou
estarrecido com a barbárie travestida de segurança de um supermercado na capital do Rio Grande do Sul que culminou com o assassinato crudelíssimo de um brasileiro que ali estava, até onde se sabe, para fazer compras, em companhia de sua mulher. Olho para a televisão e vejo um homem indefeso sendo massacrado por chutes, murros, joelhadas, empurrões e sufocamento, até sucumbir, e lembro de um joelho americano tão assassino quanto pés e mãos brasileiros que acabou por tirar a vida de um homem acusado de tentar realizar uma compra com uma cédula falsa de 20 dólares.

Dois fatos no mesmo continente, no mesmo ano, com indivíduos pagos para o exercício
da mesma atividade, qual seja a segurança de bens e pessoas, os de lá armados e pagos
pelo Estado, os daqui contratados pela iniciativa privada. O que há mais de comum entre o americano do norte George e o brasileiro João, vítimas de estupidez humana inqualificável? ambos eram negros.

Na frente do supermercado gaúcho, para onde João Alberto Silveira Freitas foi arrastado
pelos seguranças convocados por uma “zelosa” servidora, havia outras pessoas, uma que até filmou as cenas trágicas que veículos de comunicação social exibiram depois, outra que, também “cuidadosa” funcionária da casa de comércio, procurou atrapalhar a filmagem, outros ainda, “simples” assistentes. Não se tem notícia, entretanto, de que qualquer circunstante, salvo a mulher de João, tenha tentado impedir o assassinato, a tudo acompanhando passivamente, talvez por também considerarem que os gestos de brutalidade eram cabíveis e devidos. Ou seria por concordarem com o castigo aplicado a um negro?

Em 12 de junho deste ano, quando ocupei este espaço para gritar contra o que haviam
feito com George, nos Estados Unidos da América do Norte, indefeso, pedindo para
respirar, balbuciando, sem forças pra falar, que estava à morte, escrevi que infelizmente,
não era aquele um ato singular de brutalidade. A sociedade dos tempos atuais parece ter se acostumado a tanto, ou até mais, com registros que muitas vezes se restringem ao
âmbito dos familiares e dos amigos. Mas ali havia algo a ressaltar: não se tratava “apenas”
de um crime praticado por um agente da lei, mas consistia, mesmo, em manifestação
inequívoca do racismo que permeia a cultura das gentes e dos povos em todos os tempos
e em todos os lugares. O que aquele homem que se imagina branco, mesmo que só na cor
da pele, demonstrava ter sob seu joelho assassino não era para ele um semelhante, mas um negro.

Para muitos, pode parecer estranha essa afirmação, mas aquele cretino não
impunha sua força a um igual, mas a alguém que, de tez diferente, tivera o azar de ouvir
dele acusação de se deixar flagrar na prática de um delito. Fosse um branco, talvez
algemas lhe fossem fechadas nos punhos e se tivesse dado o conhecido transporte no carro, um celular da polícia. Um registro em boletim e o comparecimento à presença de um Juiz encerraria o triste episódio, infelizmente comum. Com um negro, não. Era preciso a humilhação extrema, que é comum acontecer, lá como aqui, e a indiferença aos apelos da angústia, da dor e da sufocação, talvez tenha gerado no íntimo do agressor prazer semelhante ao que experimentavam os algozes dos escravos, no Brasil de outrora, os que os compravam ou vendiam, exibindo-os como animais enjaulados ou objetos de feira. Não foi diferente do que aqui se deu.

O que os malditos seguranças jogaram ao chão brutalmente na frente do supermercado não era um ser humano, um indivíduo titular do sagrado e primário direito à vida, mas alguém cuja cor da pele basta para presumir a desonestidade. Isso mesmo. É assim que acontece no Brasil destes dias, tanto tempo depois do ato heroico de Izabel, a princesa. Não são poucos os depoimentos de negros e negras que já se viram acompanhados, seguidos mesmo, à vezes nem tão à distância, nem tanto discretamente, em lojas de diferentes ramos da atividade comercial, havendo até os que já se viram impedidos de ingressar em casas de diversão, restaurantes ou outros lugares abertos ao público.

Pois bem, no país da Lava-Jato, das delações, dos escândalos de colarinhos, não se identifica, salvo exceção que possa aparecer para confirmar a regra, brasileiro negro a fazer uso de parede falsa, de teto rebaixado, de mala, das tradicionais pastas ou mesmo de cueca para esconder o produto da desonestidade com que assaltam, com ou sem requinte, os cofres públicos, com ou sem petróleo, de verbas destinadas à educação, à saúde ou à segurança.

20 de novembro de 2020 precisa passar a ser dia de grito novo, no Brasil, contra a
pandemia da discriminação racial, plantada há séculos e preservada em diferentes
camadas da sociedade. Há que deixar de chamar de macacos jogadores de futebol nas
praças reservadas à prática desse esporte, como nas quadras durante jogos de vôlei, de
basquete, de handebol ou de futsal, só por serem negros. Mais não seja, porque a negritude é essência na construção dessa nossa sociedade. Veja-se, por exemplo, o que vem de ser comprovado por dados oficiais publicados pelo Tribunal Superior Eleitoral relativamente à eleição deste ano para escolha de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, quando negros e pardos constituíram 49,95% dos candidatos, totalizando 276 mil, enquanto brancos representaram 48,04%, pouco mais de 268 mil.

É de se pensar em políticas públicas que incluam na educação formal, desde o princípio,
o ensino e a compreensão da importância da contribuição de muitos negros na construção
da história do Brasil, desde Zumbi dos Palmares, herói da resistência contra a escravatura, e da história da Humanidade, como Nelson Mandela, que enfrentou, e venceu, forte sistema de segregação racial construindo sociedade nova na África do Sul, ou mais recentemente Barack Obama que presidiu a poderosa nação americana por oito anos. É de ver a contribuição, por exemplo, de Mae Jemison, física e engenheira, primeira mulher negra a empreender viagem ao Espaço, de Mamie Clark, psicóloga cujos estudos permitiram compreender os danos da educação não inclusiva, de Alice Ball no tratamento da hanseníase. Jane Wright também era negra e deixou contribuição de monta no tratamento do câncer, da mesma forma Mary Daly que legou o conhecimento da contribuição do mal colesterol para o entupimento de artérias e consequentes doenças do coração.

Entre nós e ainda no campo da Ciência, Vital Brasil, fundador do Instituto
Butantã, que se notabilizou no combate da febre amarela e da varíola, Juliano Moreira,
pioneiro da psiquiatria, Graziela Barroso, de notável contribuição no campo da Botânica,
César Lates, físico de contribuição efetiva para a construção do maior acelerador de
partículas do mundo, para citar alguns poucos. No esporte, há lista infindável. O
jamaicano Usain Bolt, homem mais rápido do mundo, Lewis Hamilton, atual recordista
mundial no automobilismo, Muhammad Ali, lenda do boxe, como o nosso Maguila,
Joaquim Cruz, medalhista olímpico, Edson Arantes do Nascimento, nosso Pelé,
tricampeão de futebol do mundo, considerado rei nesse esporte e maior esportista do
século passado.

No ápice da magistratura brasileira, os ministros do Supremo Tribunal Federal Pedro Lessa, Hermenegildo de Barros e Joaquim Barbosa, que chegou a presidir a Corte. No teatro e no cinema, Neuza Amaral Milton Nascimento, Ruth de Souza, Zezé Mota, Lázaro Ramos… Na música, Martinho da Vila, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ludmila, Pixinguinha… No Amazonas, Ramalho Júnior, governador, Benício Leão, geógrafo, Nelson Ferreira, matemático, Nestor Nascimento, advogado e pacifista, Rodolpho Vale, político e intelectual, Paulo Feitosa, Cândido Honório e Sabino Marques, desembargadores.

É preciso que o Brasil pelo menos conheça melhor seus filhos, a partir da formação escolar inicial, para quem sabe um dia vencer essa pandêmica sangria de nossa formação social e cultural e não se repetirem atos como os de 20 de novembro de 2020.

Da Redação: Lourenço Braga para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia 

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