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Desmatamento agrava as cheias no Amazonas

O fenômeno La Niña (quando as águas do Oceano Pacífico esfriam e alteram o clima) está atuando de forma moderada e influenciando nessas enchentes. Este é um processo natural que acontece todos os anos.

Manaus – As cheias dos rios estão preocupando os gestores no Amazonas. Chegou a oito o número de municípios atingidos pelas cheias dos rios, são eles: Guajará, Envira, Eirunepé, Itamarati, Ipixuna, Pauini, Boca do Acre e hoje Carauari. Estes municípios declararam situação de emergência. O governo estima que pelo menos 50 municípios do Amazonas possam ser atingidos até o meio do ano. Mais de 54 mil pessoas já foram atingidas diretamente. O desmatamento pode ter agravado a situação das cheias no Acre e Amazonas.

Os primeiros alertas se iniciaram no Acre, onde um dos rios que banha a região, o rio Acre, atingiu um dos maiores níveis da sua história no dia 24 de fevereiro, chegando a 17,66 metros. Após atingir Rio Branco e outros municípios, as cheias chegaram no rio Juruá, o que deixou a cidade de Boca do Acre no Amazonas, localizada a 1555 km de Manaus, embaixo d’água.

“O fenômeno La Niña (quando as águas do Oceano Pacífico esfriam e alteram o clima) está atuando de forma moderada e influenciando nessas enchentes. Este é um processo natural que acontece todos os anos. Os níveis das águas ainda podem aumentar”, contou Francisco Ferreira, secretário da Defesa Civil do Amazonas.

Nos últimos 20 anos, o sul da Amazônia Ocidental chama a atenção por eventos climáticos extremos. Quando não são as grandes inundações, são as secas severas.

Diretamente atingida pela cheia do Purus, Aníbia Albuquerque se vira como dá. “Moro em uma região mais baixa de Boca do Acre e na minha casa tem uma elevação construída justamente para as cheias. Agora está tendo uma vazante, mas a água entrou na minha casa”, conta ela.

Desmatamento agrava situação

Para o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, a enchente dos rios piorou devido à influência do homem na natureza. “O aquecimento global e o desmatamento na Amazônia aumentaram um processo natural e causa inundações. O solo fica segurando a água, a esse processo se dá o nome de histerese”.

De acordo com o ecólogo da Universidade Federal do Acre (Ufac), estudos apontam o prolongamento da época seca – o verão amazônico – nos últimos anos. A quantidade de dias seguidos sem chuvas no sul da Amazônia, explica Foster Brown, pode ser resultado do aumento do desmatamento na porção mais leste da região. Com menos árvores, menor é a quantidade de vapor emitido para a atmosfera, que se transforma em chuva. As chuvas que chegam ao sul da Amazônia são trazidas pelos ventos da direção leste-oeste, oriundos do Atlântico.

“Sabemos que com o desmatamento mudamos a bomba biótica do solo, que faz esta transformação [de vapor em chuva]. Se você corta a floresta do Pará, de Rondônia e de Mato Grosso, você pode afetar quanto de vapor chega aqui e, consequentemente, quanto de chuva cai. Este fenômeno é preocupante porque você pode chegar ao que se chama colapso de floresta”, explica o pesquisador.

Portanto, com menos floresta, em especial nas margens, a tendência é de aumento no nível dos rios, já que menos água será estocada pelas árvores no solo. Exemplo disso é o rio Acre, cujas margens foram sendo degradadas ao longo dos últimos 40 anos para atividades agropecuárias. O rio depende diretamente das chuvas em suas cabeceiras para manter um nível alto ou baixo.

Operação vai ajudar famílias afetadas

O governador Wilson Lima lançou na última segunda (8), a Operação Enchente 2021, com o anúncio de um pacote de ações para minimizar os impactos sofridos pela população dos municípios que serão afetados ou que já estão isolados pela cheia dos rios neste ano. O investimento será de mais de R$ 67 milhões. Entre as medidas estão ajuda humanitária, apoio em crédito e ações nas áreas de produção rural, saúde e saneamento básico.

Da Redação

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