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DUAS CUIAS DE TACACÁ

— Gerisney, não vou dizer que foi bom lhe encontrar aqui neste evento, porque não foi, de verdade, é incômodo encontrar com alguém que só me ferrou há algum tempo atrás, não era necessário nada daquilo… e agora você vem me abraçar como se nada e com essa conversa pra boi dormir? Não, impossível acreditar em sua comovedora história de arrependimento, até porque…

— Por favor, já se passaram dez anos, eu mudei, agora sou evangélico, me arrependi, é sério… e você está tão bonita agora… Só lhe peço alguns minutos, juro. Vamos cruzar a rua e tomar um tacacá na barraca da Maroca? Quero poder lhe mostrar esse novo ser humano em que me tornei… vamos? Por favor.

— Deixa só deixar bem claro uma coisa: não estou tão bonita, sempre fui, mas ao seu lado, queridinho, murchei, ainda bem que você me colocou para fora da sua vida em boa hora… Pensando bem, vou aceitar seu convite, porque um amazonense nunca está emocionalmente preparado para recusar um tacacá, e além do mais, seria uma excelente oportunidade para lhe dar as boas notícias de minha vida, depois que me desvinculei totalmente de você, queridinho.

— Waldilânia, sei de meus erros, mas tivemos nós a culpa. Por favor, duas cuias de tacacá com camarão e pimenta murupi. Você ainda gosta de pimenta? Lembro-me que sempre apimentávamos nosso angu… e…

— Não comece com suas desagradáveis saliências, Gerisney, senão pego minha cuia e dou meia volta! Sabe qual foi meu erro? Achar que podia dividir uma vida com você, esse sim foi meu maior erro! Enquanto eu trabalhava você saracoteava, às minhas custas, com todas que pôde e ainda me fazia sentir a pior mulher da face da terra, seu traste!

— Negativo, não foi bem assim! Você sabe que quando um homem diz não, a mulherada vai espalhando pra todo mundo que o cara é boiola, então um homem tem sua honra e tem que defendê-la a todo custo… foi apenas por isso que aconteceu o que aconteceu.

— Tenho vontade de quebrar todas essas cuias da Maroca em sua cabeça, mas isso não resolveria nada, você é um caso totalmente perdido, Gerisney. Tenho dó de sua atual esposa, ela deve estar muito cega para compartilhar uma mísera vida a seu lado, como estive um dia… Deus me livre, vou bater na madeira! Apesar de todo o sofrimento que vocês me causaram, só desejo que ela possa acordar pra vida e enxergar o imbecil crônico que você é, pois afinal, éramos as melhores amigas de toda uma vida.

— Walzinha, você sabe que eu não a amo, é você quem eu sempre vou amar. Se você me dissesse para deixá-la, seria o homem mais feliz do mundo. A nossa transa era gostosa e você sabe que era… eu me garanto, você sabe!… nós dois…

— Nem mais uma palavra, senão vomito na cuia! Gerisney, você jura que bate bem da cabeça? Você só diz asneira. Fico pensando como você pôde parar no tempo e não conseguir evoluir em nada, só conseguiu perder o cabelo em todos esses anos?… É demais pra mim, não vai dar para continuar essa conversa sem pé nem cabeça. Foi um desprazer, estou indo e não se atreva a aproximar-se de mim, ok! Passe bem, energúmeno.

— Melhor de cama que aquele veadinho que você arrumou eu sou sim e me garanto, porque já me disseram que o pinto dele não chega a uma polegada.

— Seu idiota, preste bem atenção no que vou lhe dizer agora: na maioria das vezes que fui pra cama com você, fingia os orgasmos. Sabe por quê? Não é o tamanho que importa não, é a competência na arte de fazer bem feito, coisa que você não tem, fazer gozar pelo ouvido, saber dizer as palavras certas no momento certo, ser dono de uma inteligência emocional invejável, capaz de chegar à psiquê e à alma da mulher da sua vida, isso sim é gozo, aí sim não dá pra fingir não, entendeu, asno? Não adianta exibir tamanho e se vangloriar por aí do extenso número de mulheres que comeu… eu comi essa aí, ó cara… comi aquela ali, ó! Deixe de ser idiota, caia na real, Gerisney, já é hora de parar de passar vergonha. E outra coisa, esse negócio de sair falando do membro masculino de fulano, beltrano e sicrano, só demonstra o tamanho de sua imbecilidade… talvez até seja uma confissão involuntária, sabia?… mas não tenho preconceito, se você quiser sair do armário, pode contar comigo! Afinal de contas, torço por sua felicidade. Porém, depois de duas cuias de tacacá, que foi a única coisa boa desse reencontro, chego à conclusão que de maravilhoso ser humano, você não tem nada, nem a casca… Passe bem e até nunca mais.

Da Redação: Marta Cortezão para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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3 Comentários
  1. CARLOS SILVA Diz

    Retou-se e com extrema determinação, colocou o sujeito abaixo do predicado rsrsrs

  2. Marta Cortezão Diz

    Rsrsrs Obrigada, Carlos Silva, pelo divertido comentário. Um abraço amazônico.

  3. Patrícia Cacau Diz

    Amo a escrita dessa potente amazonense…
    Eu tenho vontade de dar na cara desse sujeito…kkk conheço bem o tipo.. se não fosse o tacacá valia nem a prosa..kkk
    Bjinhos 😘😘 Marta Cortezão;

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