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Em terras de pandemia, quem tem um jaraqui frito é feliz

O velho “jaraco” é muito querido, porque é uma iguaria deliciosa e de sabor excepcional. Ele é “pitiú que só o cão!”, é verdade, mas é delicioso. É considerado um peixe pertencente ao “baixo clero” das águas doces. A bem da verdade, ele é tido como um “galeroso” no panteão dos peixes que nós amamos por aqui.

A pandemia persiste, e à medida que perdura, gera grandes perdas econômicas para o mundo. Na Amazônia, a bronca é ainda mais alta. Os interiores (ao contrário do que pensa a enorme gama de pessoas ‘por fora’ da realidade) penam pela falta de alimentos, inclusive de peixe, e também do simples e popular jaraqui, que é o “galeroso” dos peixes de águas doce, que é o “rei do povão”.

O jaraqui é um centenário conhecido dos ‘cabôcos’ amazônicos, e mata a fome de muitos povos espalhados pela Amazônia, mas a pandemia trouxe consequências importantes para serem estudadas. Os tais programas de combate à fome se debruçam exclusivamente em estudo de amplitude mundial, mas os seus relatórios “fantas” não se detêm na análise situacional dos interiores amazônicos, por presumirem que a fartura de peixes não acarreta privações de pescado nessas regiões. Enganam-se!

A escolha perfeita e mais famosa: jaraqui frito com baião de dois – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

A enfadonha frase “quem come jaraqui, não sai mais daqui”, se mostra desgastada ante a carência dos ribeirinhos em ter à mesa uma diversificada alimentação. O “jaraco”, como é popularmente conhecido, é uma espécie de peixe que encabeça a principal fonte de proteína animal para grande parte da população do Amazonas, por exemplo. Mas, fatores desencadeados pela pandemia, sobretudo no setor produtivo, têm influenciado diretamente na atividade pesqueira amazônica.

Apesar de afirmarem que a pandemia não afeta diretamente o pescado, é fato indubitável que o setor pesqueiro – por estar inserido intrinsecamente na cadeia produtiva e econômica – está sim sujeito a impactos indiretos, sobretudo no que concerne às mudanças nas demandas dos principais movimentadores da pesca, os consumidores. Também colaboram: a complexidade do acesso ao mercado e, de modo destacado, a problemática galopante de logística em relação ao transporte (devido às restrições) para os destinos finais da produção.

Uma iguaria popular. Um peixe do povão. É “galeroso”, mas é gostoso! – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Fatores estritamente fisiológicos (e até psíquicos) também podem ser considerados importantes para a queda abrupta da demanda setorial, quebrando a força produtiva de modo considerável, tais como: a baixa altoestima entre os operadores do setor pesqueiro no Amazonas, o desânimo patente por conta da inacessibilidade e da ausência de informação técnica por parte dos órgãos ligados ao setor, e até mesmo a ausência de estímulo para colocar o peixe na mesa do próprio caboclo, que, aos trancos e barrancos (mais aos barrancos), parte para a alimentação alternativa: enlatados, industrializados, etc.

O jaraqui é considerado um peixe pertencente ao “baixo clero” das águas doces… A bem da verdade, ele é tido como um “galeroso” no panteão dos peixes que nós amamos por aqui. O jaraqui ´é nosso amigo´, e mesmo que essa frase nossa pareça pilhérica, o “jaraco” é sim um peixe querido entre os povos amazônicos, por muitas razões, principalmente porque é barato. Custa cerca de 1 real a unidade dos “porrudos”, e uma ‘cambada’ com cerca de 20 jaraquis vale aproximadamente uns 10 paus, ‘com bucho ou sem bucho’.

O velho “jaraco” é muito querido, porque é uma iguaria deliciosa e de sabor excepcional. Ele é “pitiú que só o cão!”, é verdade, mas é um indiscutível item da preferência dos amazonenses, disputando com gigantes sagrados, entre os tais: o pirarucu, o tambaqui, a matrinxã, etc. É extraordinariamente saboroso (sobretudo frito e com ‘baião de dois’), e no seu ‘perfil nutricional’ constam consideráveis teores de proteínas, sais minerais e ácidos graxos do tipo Omega3, que previnem doenças coronarianas, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Servido com limão e pimenta murupi. Irrecusável – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

As evidentes quedas na expansão da pandemia no mundo, de modo específico nessa denominada ‘segunda onda’ na Amazônia, nos trazem relevantes esperanças na retomada dos esforços no setor pesqueiro, e a flexibilização, mesmo mantendo as importantes medidas sanitárias ainda obrigatórias, começa a mobilizar o setor para a recuperação do poder da pesca na Amazônia, nos devolvendo as expectativas de termos de volta, em abundância, em nossa mesa, os jaraquis (e outros peixes) massêtas, aos quais estamos acostumados.

É mais delicioso ainda lá no “Peixe de Ouro”, atrás de Feirinha do Parque 10 – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Em Manaus, não é assim tão difícil encontrar um bom peixe frito. Já foi mais fácil, é verdade. Mas, esperamos que após a pandemia possamos reviver sem medos a liberdade de comer um peixe amazônico maravilhoso, seja frito, assado ou cozido. Recomendamos o melhor jaraqui frito de Manaus (entre outros), lá na Peixaria “Peixe de Ouro”, bem ali atrás da “Feirinha do Parque 10”, conforme as fotos tiradas ontem (29/02), ‘in loco’ , pela equipe do PVA.

Depois da pandemia, quando passar toda essa “fuleragem” que nos prende ao ‘cárcere domiciliar’, e nos impõe relativa privação do alimento costumeiro e dos passeios à vontade, nós vamos correr “dicumforça” pra cima do jaraqui frito, daqueles cabeçudos; do tambaqui assado, da matrinxã que pinga na brasa, dos abraços amigos, das rodas de samba e da cerveja gelada. Sem jaraqui frito, não há poesia. Sem esperança, não há futuro digno. Sem trabalho, não há crescimento… É tudo verdade sim, mas, sem saúde, não há vida. Esperamos ansiosos pelo fim da pandemia. Tudo isso já vai passar. Um pouco mais de paciência e de prudência.

Da Redação: Editorial de Paulo Queiroz para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia.

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