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Epígono e Prícono digladiavam, enquanto a ignorância mudava os nomes das coisas

Amadores que se auto enquadram como “profissionais”, mas vê-se que estão aquém deste conceito, pela qualidade diletante e ‘anêmica’ de seu trabalho, se acham superiores aos aprendizes. A ignorância é como aquela parte da toalha que não enxuga, e que todo mundo detesta quando passa ela no rosto. Ela também é embaraçosa, incômoda e irritativa, como as propagandas do Youtube em pleno orgasmo musical, que você odeia, mas não tem coragem de dizer.

Aprendi acerca de ignorância e a sua ‘utilidade’ quando comecei a perceber que a formação humana é uma estrutura cronologicamente complexa. A gente nasce e cresce e se desenvolve, e a gente presta ou não presta para a vida social proveitosa. E o que determina isso é o exercício apropriado da ignorância, que tem sim a sua ‘utilidade’. Aliás, o velho pantaneiro, o mais completo e consagrado ‘poeta de quintal’, converteu a sua própria percepção humana em uma obra-prima transformadora: “O Livro das Ignorãças”, que dignifica com relativo bem-estar o seu aproveitamento. Lembrei-me imediatamente de uma quimérica viagem eu que fiz.

Em transição rápida pela Apolitréia, conheci Epígono, discípulo devotado de Dangrúnamo, o venerado mestre que renunciou à grandeza intimista para elevar o espírito dos que dele precisavam. Epígono era um aprendiz que dizia que um aprendiz de fato está para aprender, e ao mesmo tempo, ensinar o que sabe sem, todavia, asseverar que sabe tudo. É ao que o preciosismo do pensamento socrático – um enigma arrebatador – chamava de a tomada de consciência da própria ignorância; isto é, o sentido do axioma valoroso “Só sei que nada sei”. O aprendiz já poderia ser chamado de sábio, caso disso fizesse questão, mas, declinou de tal privilégio. Preferiu continuar aprendiz.

O homem que se chamava “Ferdinando” fracassou na vida e derruiu socialmente – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Prícono, caminhante irredutível da contramão da modéstia, flanava pelas veredas da erudição pseudoconcreta, como um doutrinador coercitivo que perambulava ensinando aquilo que presumia saber, especialmente declarando o contrário do que instruíam Dangrúnamo e Epígono. Suas discordâncias não tinham o caráter educativo de admoestar ou fazer evoluir o povo; elas eram apenas antagonistas e protestativas; elas eram mero oposicionismo. Mas ele tinha o amparo do rei, enquanto Dangrúnamo e Epígono eram autônomos, independentes, respeitáveis, não raro, marginalizados como párias dos sistemas, mas nunca se opunham severamente à monarquia ou às leis.

Recordo também que eu morei lá na beira de um barranco, na Cidade Nova, onde o vento conseguia mexer os meus já parcos cabelos que começavam a embranquecer. Vento bom, gostoso, que promovia uma inusitada coceira nas ainda jovens pálpebras. A minha cadeira de balanço era de macarrão emborrachado todo arrebentado, remendado de cima a baixo, cheia de brechas imensas, daquelas que faziam a bunda ficar ‘carimbada’ a ferro de assento, mas eu nem sentia, porque estava engolindo o umbrático e ofuscante universo de Manoel de Barros, quando ele ensinava sobre o olhar e a semiótica de mundo. Aprendi “dicunforça” acerca da ignorância ocular do ‘ver o outro’, e do perceber a ‘presença invisível’ de quem teve o nome genérico mudado de ‘pessoa’ para ‘nada’.

Manoel de Barros, o menino que repetia tardes e que carregava água na peneira – Foto: Divulgação/PVA.

“O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa. Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada. Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa. Era uma enseada. Acho que o nome empobreceu a imagem”. O homem que se chamava Ferdinando fracassou na vida e derruiu socialmente. Passou a ser chamada pelos outros apenas de ‘ser inumano’ largado nas calçadas da cidade emporcalhada e feia. Perdeu o nome. Perdeu o olhar do mundo.

Propagandistas da paz e da honra, que se auto intitulam pacificadores e moralistas, mas que engendram intrigas e beneficiam-se a si próprios – e aos seus – com designações que não são meritórias, porque não lutaram para tê-las, usam a sua influência para crescer. Amadores que se auto enquadram como “profissionais”, mas vê-se que estão aquém deste conceito, pela qualidade diletante e ‘anêmica’ de seu trabalho, se acham superiores aos aprendizes. Poetas que se esmurram os peitos, autoproclamando-se emissários da paz e do bem, mas traem a língua e a harmonia humanas com a sua cupidez pública, se vendem, porque se malograram. Sacerdotes que se auto ungem ‘delegados’ de Deus na Terra, mas que se enganam a si próprios, quando fingem que o Eterno é cego para as suas torpezas, e que ‘ignorantizam’ os seus já ignorantes – desde o nascedouro – seguidores.

A ignorância é ‘tão foda’, que faz o homem passar fome bem no meio de um banquete gratuito. No que pese o respeito ao ovacionado politeísmo indiano – por exemplo – e as suas características renunciatórias, as vacas e quase todos os bovinos passeiam à vontade nos apertados vilarejos infestados de ‘bacilos de fome’, onde surtos famélicos deixam os aldeões indiano agonizarem nos povoados explodidos pela demografia. Vacas gordas, de ‘castas bovinas’ superiores, redutos de valorosas e deliciosas proteínas, transitam célebres entre a rudeza de uma nação esfomeada e a ignorância de um povo cujo couro das costas resvala com o da barriga. Quem come uma vaca ou um boi, morre – literalmente – de barriga cheia. Quem atropela uma vaca ou um boi está passivo de intransigente processo judicial, perigando de ser condenado.

A ignorância é ‘tão foda’, que faz o homem passar fome bem no meio de um banquete gratuito. “Boi Ápis”, um deus, um alimento – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

No dinamismo popular do Egito Antigo – como um derradeiro exemplo – a ignorância tinha conotações diferentes, embora a multiplicidade de deuses fosse tão semelhantemente escandalosa. Um deles era Ápis, o touro-deus selvagem que representava – de modo geral – o vigor corpóreo, a força, a virilidade, a energia, o combate, a fertilidade e o alimento. Ápís, além de ser belo, exprimia o sorriso humano da satisfação pelo prazer do alimento e pela abundância dele, ou seja, ele mesmo inspirava sobre a ideia de completude alimentar do povo, embora fosse adorado como um autêntico deus. O boi indiano nem de perto se compara ao boi egípcio.

A ignorância briga com a racionalidade desde que Deus começava a planejar o mundo. E através dela, a gente consegue enxergar uma realidade deplorável: os que se veem como irrefutáveis gênios da sociedade são na verdade parentes desconhecidos de Prícono, do mesmo jeito frívolos em seus passos dentro dos relacionamentos, feito chuvas amazônicas que animam o “caboco”, mas que fogem dos seus olhos tão rapidamente quanto a chegada do sol dentro da sua duração rápida. Em meu modesto juízo, essa gente é detentora de uma ignorância que os impede de distinguir uma pedra solitária em lugar qualquer, de um “bolôto” de merda seca em qualquer lugar, sem que para isso necessite juntar e cheirar.

Ignorância que impede de distinguir uma pedra solitária em lugar qualquer, de um “bolôto” de merda seca em qualquer lugar, sem que para isso seja preciso juntar e cheirar – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

A ignorância é útil sim, para separar a água límpida do óleo queimado; para afastar a faísca de perto do querosene; para manter distante do fruto o inseticida… A ignorância é como aquela parte da toalha que não enxuga, e que todo mundo detesta quando passa ela no rosto. Ela também é embaraçosa, incômoda e irritativa, como as propagandas do Youtube em pleno orgasmo musical, que você odeia, mas não tem coragem de dizer. É também muito semelhante ao ‘ódio’ que os ignorantes sentem de determinados políticos, mas que, quando os veem, quando os abraçam, dizem amá-los. É como a repugnância que o povo sente desses mesmos políticos, mas que logo passa, e ele começa a endeusá-los com dezenas de coraçõezinhos e mensagens de “Deus o/a abençoe” nas redes sociais.

O povo, quando se embriaga nas ‘desleituras’ da racionalidade, aplaude as imagens e os ambientes das casas nababescas dos políticos: confortáveis, requintadas, luxuosas e lindas, enquanto a sua (quando há) está caindo por cima de si próprio: apodrecida, empobrecida, carcomida, ruinosa. A ignorância popular se parece com quase tudo que é permanente, e em nada guarda semelhança com a razão – ainda que temporária – que abre os olhos e o entendimento. A ignorância faz do povo uma espécie de ‘palhaço chorão’, porque causa nele perplexidade, mas não o faz agir racionalmente, pois arraiga nele um ser emocional sem cura, sem reversão, que sorri para os infortúnios.

Ela faz do povo um ‘palhaço chorão’, porque causa nele perplexidade, mas não o faz agir racionalmente, mas que sorri para os infortúnios – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

No imaginário da minha viagem rápida a Apolítréia, eu constatei que o pobre Epígono não duraria muito, pois seria massacrado pela potestade do reinado, do monarca, que era amigo e protetor do prestígio ‘influencial’ de Prícono. Dangrúnamo, então, esse foi que virou pó mesmo, porque era um mestre da racionalidade, e se recusava a ensinar ou transfundir o sofisma que embala os ignorantes nas ‘redes da incivilidade’. Mesmo durando pouco, Epígono deixaria legado respeitável, pois era para o que vivia. Prícono, por outro lado, quando morresse de desgosto – e morreria – devido às suas verves insidiosas, deixaria apenas uma lembrança ínfima de cidadão nebuloso que existiu para perverter o arcabouço da ética humana. Ele fingia a eticidade para esconder as suas mazelas de ser ignorante.

Da Redação:

Editorial de Paulo Queiroz para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

 

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