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Fim da pandemia: um anseio que causa inquietação e possíveis reincidências virais

A vaidade humana arromba as portas de um sistema de prevenção pensado, destinado à manutenção da vida, e a sua insubordinação deixa evidente a desconsideração dos alvitres de flexibilização e de liberdade de fato.

Manaus – A equipe jornalística do PVA esteve nas ruas de Manaus neste sábado (27/02), numa incursão despretensiosa em dois locais considerados os mais frequentados pela população de Manaus: o Centro da capital, e a Zona Leste. Estes são os derradeiros dias que antecedem a despedida de fevereiro, mais um mês que se esvai na garganta cronológica do avexado 2021. Prenúncio de “apressassão” de um tempo famigerado, veloz que nem a vontade do povo em ser livre.

A complexidade visual que faz desacreditar no medo – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

A apreensão popular não nasce apenas do armagedônico emaranhado de fios suspensos e arriados sobre as nossas cabeças, formando uma complexidade visual que denuncia a negligência institucionalizada, tanto dos governos quanto das companhias de ‘fiações’. A perplexidade ganha vida, sobretudo, no ajuntamento de pessoas que integram esse conjunto infinito de aglomerações que transmitem não apenas possibilidades nada remotas de contaminação, mas de subestimação do potencial de recidiva da Covid-19.

A flexibilização das restrições governamentais trouxe um afã espantoso na conduta da população, no tocante ao ‘sair de casa’, ao ‘bater pernas’, ao ‘respirar ares impuros’… E enquanto nessa pandemia os comerciantes vendem o almoço para comprar a janta, o povo quase nem almoça ou janta, razão pela qual somos inseridos sem querer em uma esfera repleta de dúvidas que causa inevitável inquietação: afinal de contas, o que a população faz nas ruas comerciais em plena pandemia, se a bancarrota econômica (resultante da pandemia) é um sinal presente na vida social?

Compreendendo o sentido de liberdade

Nunca será fácil conceber os anseios do povo, mas quem se negar a compreender essa agonia, estará fadado ao apedrejamento social, onde aquele que declara que o povo deve permanecer ‘trancafiado’ por mais tempo, sem caminhar, sem vender, sem comprar, sem se libertar, é trucidado sem dó pelos agentes fomentadores do ódio e da insurreição. Os governos, que geralmente são os maiores culpados das desgraças populares, são também os que mais ‘pegam porrada’ quando se fala em restrição da liberdade.

Então, o que diabos o povo quer nas ruas? Concernente à questão suscitada provavelmente caberia algumas óbvias respostas: a população está com medos terríveis de subitâneos decretos de novos fechamentos. O povo simplesmente quer sair, espiar, sentir, comer as iguarias ‘ruístas’, ou aglomerar para comprar matéria-prima voltada à sua simples sobrevivência cotidiana. Ou ainda – em casos extremados e negacionistas –, muitos do povo querem comprovar apenas que a pandemia não passa um colossal embuste.

A liberdade nunca terá um sentido pleno se exercida com indisciplina – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Nenhum povo no planeta prima mais pela liberdade do que povo latino-americano, que muitas vezes, para consolidar essa sua vontade de ser livre, o povo faz da teimosia e da subversão as suas armas e as suas (in)glórias, e acaba caindo nos braços das advertências cruciais de Huxley: “Os homens são animais muito estranhos: uma mistura do nervosismo de um cavalo, da teimosia de uma mula e da malícia de um camelo”.

Opondo-se a isso, Gandhi vê na pacificação da teimosia o caminho mais eficiente para viabilizar os anseios populares: “Coisas que nos parecem impossíveis, só podem ser conseguidas com uma teimosia pacífica”. E o povo pegou corda… O povo, que é amado, e que não se ama, se esquece de que isso que estamos atravessando é uma pandemia. Uma pandemia que, inclusive já nos tapeou uma vez, quando ‘fingiu’ que tinha ido embora, mas que, depois da teimosia popular, voltou devastando tudo pela frente. É… Interpretaram o mestre Gandhi de modo equivocado… Uma hermenêutica muitíssimo perigosa.

Liberdade é necessidade constitucional. É espírito principiológico residente no ‘ir e vir’, e até no permanecer. A vaidade humana arromba as portas de um sistema de prevenção pensado, destinado à manutenção da vida, e a sua insubordinação deixa evidente a desconsideração dos alvitres da flexibilização e da liberdade. A equipe do PVA, nas ruas, constatou razões sobejantes que atestam isso: apesar do expressivo número de cidadãos usando máscaras (muitas também no queixo), nenhum distanciamento entre os transeuntes se viu durante a nossa incursão.

População ‘acochada’ entre a desconsideração do perigo e a vontade de gozar da liberdade – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Pessoas, muitas pessoas, falando umas em cima das outras, quase ‘se beijando’. A manipulação de comidas de rua, lanchonetes, restaurantes, não observava as recomendações preventivas – tanto na área central quanto na Zona Leste da capital amazonense –, exprimindo a ideia brutal de despreocupação dos comerciantes e dos consumidores quanto à feitura apropriada dos alimentos.

Flexibilização x Vacinação

Estamos diante de uma ‘dicotomia’, cujos efeitos sistemáticos são distintos, abruptamente diversos, bem distante um do outro. Porém, flexibilização e vacinação acomodam em sua essência um resultado único: a vontade incontrolável do povo em sentir-se livre, imunizado, desimpedido de ir e vir (e permanecer). Isso, entre outras coisas, pode ser catastrófico – a médio-prazo –, caso os órgãos de controle ‘abram as pernas’ sem observar quem é que ‘vai entrar’. Aí sim, para o povo, a Covid-19 será encarada como uma simples “gripezinha”.

A intensidade do movimento popular exprime a sua vontade de dar um basta às restrições – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Se não é verdade o que foi dito acima, então vamos ponderar a respeito: a flexibilização proposta pelo governador Wilson Lima acelerou a azáfama do povo, causando no seio da sociedade assolada pela Covid-19 um afobamento com ares de ‘pandemia já findada’. Façamos ideia quando todos (ou a grande maioria do povo) forem vacinados! O sentido de liberdade e cura será extraordinário, perigoso e ameaçador. Sem exageros: Manaus não distará muito daquelas cidades indianas onde ocorrem festivais religiosos impressionantes, onde o povo se perde dentro do próprio povo. Todos estamos doidinhos para voltar aos tempos de povaréu!

O jornalismo está nas ruas, todos os dias, cumprindo um mister essencial para informar a todos, inclusive auxiliando as governanças na depreensão da realidade dos povos, na percepção das verdades que aniquilam a presunção e derrubam os muros nefastos das conjecturas, coisas que fazem do ‘achismo governamental’ um vírus tão letal quanto este que vem – de ‘pau enfiado’, sem ‘tirar de dentro’ – devastando vidas há mais de um ano, e de modo excepcional, no Amazonas.

A Imprensa está nas ruas. O PVA está nas ruas, para colaborar com a concretude da informação real – Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Caso o povo não aprenda de fato a considerar o perigo iminente que o circunda, impondo a si próprio as regras de conduta que promovem a verdadeira liberdade, nunca será livre de fato e nem de direito, pois viverá diuturnamente sob a égide da compreensão de que os governos são os únicos opressores sociais, os exclusivos responsáveis pelos infortúnios dos povos, e autores dos flagelos humanos. Um povo que se ampara em esperanças falsas, que ignora os clamores da Ciência, está fadado às inglórias que moram dentro da incivilidade e à desventura.

Vamos com calma nos afãs de perambular pelo mundo, pois ainda é deveras prematuro para acharmos que o inimigo fugiu. Inimigos que fogem voltam para se vingar, porque estão vivos. Inimigos precisam ser trucidados, aniquilados, extintos, mas para que isso efetivamente ocorra, necessitamos de estratégias sérias, guiadas pelo bom senso de um povo compromissado com a vida.

O povo precisa conhecer bem o seu inimigo (que ás vezes é ele próprio). Por isso não seria impróprio aqui refletir naquilo que ensinam os escritos de Sun Tzu: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas”.

Melhor mesmo e esperar, respeitar, observar, e pensar nas rimas do velho “Katinguelê”: “Quando o temporal passar, tudo normalizar, podemos conversar…”.

Da Redação:

Editorial de Paulo Queiroz para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

Colaboração operacional: Synthia Queiroz

 

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