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FRATERNIDADE E CANCELAMENTOS

O Brasil continua dividido. Nem mesmo esse vírus terrível arrefeceu os ânimos. Pelo contrário: a pandemia se misturou com política. Há brasileiros enfrentando a morte em meio a desavenças políticas entre familiares e amigos.

Não sei o que é pior. Se o corona vírus ou o vírus da intolerância e do maniqueísmo. Recuso-me a viver num mundo em que só temos dois aspectos opostos e incompatíveis.

Fulano, conservador e religioso, criticou o atraso da vacinação por parte do Governo Federal. Foi cancelado e expulso de grupos de Whatsapp, taxado de esquerdopata. Beltrano, militante do PT, confessou que tomou ivermectina como profilaxia para a Covid-19. Também foi expulso e cancelado de grupos de Whatsapp, acusado de negacionista.

A palavra “cancelamento” foi ressignificada em 2020. O cancelamento ocorre em redes sociais, inclusive em grupos de Whatsapp. Um membro do grupo acusa outro, em tom condenatório, de algum ato ou declaração reprovável. O sujeito é cancelado.

Pasmem! Há um grupo que desde sempre agasalhava Fulano e Beltrano.  Ambos são católicos praticantes. Fazem parte de um grupo de Encontro de Casais da Igreja. Tudo indo bem no grupo, até que começaram os debates sobre a campanha da Fraternidade de 2021. Neste ano, a Campanha tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e lema “Cristo é a nossa paz, do que era dividido, fez uma unidade”.

Como católico, penso que a Campanha da Fraternidade é um chamado ao Evangelho. Sempre na Quaresma. Entretanto, ao condenar o racismo, a violência, a intolerância, inclusive contra LGBTs, a campanha deste ano despertou a ira de grupos católicos conservadores.

Fulano e Beltrano estão desolados. O grupo da Igreja era o único local em que tinham convergência e podiam exercitar com alegria e cristandade a troca de memes e mensagens. Fulano pediu ao grupo que esqueçam um pouco essa polêmica. Beltrano lembrou que o que tiver que ser criticado deve ser feito com serenidade.

Eu fico meditando sobre o lema ”Cristo é a nossa paz!”. Que paz é essa, meu Deus!

Estou lendo a biografia de Jorge Amado, da jornalista e historiadora Joselia Aguiar. Um trabalho magnífico. Jorge foi deputado pelo Partido Comunista, mas depois renegou o comunismo. Para o casal Jorge e Zélia, nada mais castradora do que a divisão entre esquerda e direita.

Grande verdade. Nada mais abominável. Em tempo de Campanha da Fraternidade não cabem cancelamentos.

Da Redação: Pedro Lucas Lindoso para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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