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Furando a fila na linha de frente: os soldados que morrem primeiro

Em guerras passadas, nos tempos ‘inocentes’ das baionetas, os soldados que tocavam aqueles taróis morriam primeiro. Se assemelhavam a bonecos suicidas que não conseguiam desviar das pedras atiradas. Mas o que parecia patético era uma questão de honra. Ser atravessado por aqueles chumbos que zimpavam nos ouvidos, ou ser dilacerado pelas vorazes bolas de canhões que viajavam pegando fogo pelos campos de batalha representava distinção. Lá não havia flancos, só front, e ninguém usurpava a vaga de ninguém, porque todos queriam morrer ou sobreviver com honras. Hoje, todavia, nas guerras modernas, atacam mais pelos flancos e, sorrateiramente, por trás… Sobretudo por detrás (no melhor sentido da expressão, se é que há).

Aquelas eram guerras bélicas, como a Guerra Civil Americana, conhecida também como a Guerra da Secessão. Hoje, porém, as guerras têm outra conotação. Sem precisar ir muito longe para descrever os requintes de uma ‘guerra contemporânea’, basta a gente pensar na guerra viral que a Covid-19 trouxe para os nossos dias. Apesar de a sociedade denominar de ‘linha de frente’ a categoria dos trabalhadores da saúde – e eu concordo, para os que efetivamente estão lá – (os médicos, os enfermeiros, os técnicos de enfermagem, etc.), pois são considerados os ‘soldados do front’ – aqueles que marcham sem medo da morte na primeira fila do conflito –, os que precisam receber primeiro os ‘coletes’ à prova de vírus: as vacinas. São prioridades sim, dizem os governos. Todos concordamos, claro.

Ocorre que muitos da sociedade discordam do rol categorizador de prioridades que está se formando. E a celeuma está declarada, porque os professores, os idosos, os policiais, os garis, os militares, os motoboys, e até mesmo os jornalistas, também já se consideram dignos da prerrogativa de prioridades. Só que, segundo algumas denúncias que perambulam pelas redes sociais – e que andam acordando o “leviatã” da ira da população indignada –, outros grupos-classes de ‘soldados’ surgiram reivindicando também (só que furtivamente) o direito de serem imediatamente vacinados pelo método sórdido e recorrente do “fura-fila”.

Dentro dessas categorias estão: os filhinhos de papais, os parentes de alguns políticos, os mais chegados de algumas autoridades e, segundo alardeiam por aí, até mesmo a parentela e amigos de servidores do alto-comando da Saúde estão sendo agraciados com vagas privilegiadas dentro das filas do front de batalha, mas bem longe do perigo das balas e das bolas de canhões. Eles são conhecidos como ‘soldados clandestinos’, não-genuínos, desprovidos de vergonha nas caras, imorais e infratores da decência.

A bem da verdade, parece que nessa guerra viral vale de tudo para a salvação pessoal. Cada um se vira do jeito que dá, não importando a inobservância dos pactos, dos tratados, da ética humanitária e dos protocolos de prevenção dos ‘crimes de guerra’. O que importa é sobreviver! Isso é tão lamentável quanto ignorar o perigo mortal do Coronavírus. E quem se espanta ou se escandaliza com esse tipo de evento em nosso país, precisa aprender rapidamente que isso aqui é Brasil.

Ainda estamos numa guerra… E eu sinto muito… Não quero aqui cultivar o pessimismo, mas a enxurrada de denúncias que vem por aí sobre essa temática será “tsunâmica”, porque muita gente prioritária será enganada. Quero muito estar errado, pois isso me fará bem! Mas, quem morrerá primeiro: os soldados combativos (o povo), ou os usurpadores (os trapaceiros)?

Editorial de Paulo Queiroz para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia.

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1 comentário
  1. Paulo Queiroz Diz

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