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MULHER: RELACIONAMENTOS ABUSIVOS E VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

Ela estava ali ouvindo uma boa música, em meio àquela conversa agradável, muitas risadas e entre os amigos, lá estava ele. Aquele homem simpático, divertido, de olhar cativante, que servia drinques, puxava cadeira da mesa, e que, ao final da noite, até abria a porta do carro, parecia ser o homem perfeito, a sua cara-metade. Ele era diferente de todos os homens com quem ela havia se relacionado, era demais pra ser verdade. Namoro “caliente”, regado a muitos “cuidados”, muitas mensagens, algumas longas, outras curtinhas, as vezes tarde da noite “apenas” para saber onde ela se encontrava e com quem.

À medida que o tempo ia passando o relacionamento ia mudando, ele passou a ter ciúmes dos ex-namorados e até do passado dela; os presentes passaram a ser conforme o seu gosto e não o dela, como se quisesse moldá-la a si. A confiança foi diminuindo, passou a controlar seus passos, as mensagens tinham que ser respondidas instantaneamente; os encontros com as amigas foram minguando e, quando ocorria, era motivo certo para brigas. Ele queria estar em todos os locais em que ela estava, caso contrário sentia-se preterido.

Não havia diálogo e após a mais simples discussão, eram dias a fio de mau humor e indiferença porque, em sua cabeça, ele era sempre a vítima e estava com a razão. Não, não adiantava, porque não havia mais a mínima possibilidade de diálogo. As palavras transformaram-se em xingamentos e os insultos eram constantes. Ela era ofendida, constantemente, com palavras e ações que ridicularizavam sua forma física e colocavam em dúvida sua capacidade intelectual. Receber um elogio? Nem pensar, isso não fazia mais parte da sua rotina.

Aquele relacionamento passou a ser um fardo muito pesado, ela estava adoecida mentalmente, se achava feia, incapaz e com autoestima no chão. Mas ele não a agredia fisicamente, então se questionava porque sentia-se daquele jeito se ele “não era tão ruim assim”.

Ela não de dava conta, mas estava vivendo um relacionamento abusivo e ao mesmo tempo, sofrendo violência psicológica, sim, violência psicológica. Muitas mulheres ainda pensam que violência é somente física ou sexual, no entanto, a violência psicológica é uma das que mais afeta as mulheres, e os relacionamentos abusivos são marcados, assim como têm como principal característica, esse tipo de violência. É cada vez mais comum ouvirmos relatos de mulheres dizendo-se envolvidas em relacionamentos cuja definição, vão de problemáticos a solitários, e que, na realidade, não passam de relacionamentos abusivos.

As características de um relacionamento abusivo, embora muito comuns, dificilmente são percebidas e assim encaradas pelas vítimas, são ações violentas, mas que foram “naturalizadas” ao longo da vida das mulheres.

Agressões verbais, xingamentos, indiferença, desprezo, deboche, controle excessivo; deslegitimação de falas; proibição de contato com amigos e familiares; constrangimento em público; ter relações sexuais obrigatórias, mesmo sem vontade, apenas para atender a vontade do parceiro; deixar de fazer o que gosta para evitar conflitos; falas do agressor que visam degradar o trabalho, a aparência e os valores da mulher, atingindo negativamente sua autoestima.

A Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) prevê no artigo 7º, inciso II o crime de violência psicológica como “qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.

Para além da violência psicológica, esse tipo de relacionamento pode envolver outras espécies de violências, desde a física, a sexual, podendo chegar até ao feminicídio.

Os dados específicos sobre violência psicológica ainda são muito escassos até em virtude da subnotificação dos casos, haja vista que, por vezes, a própria vítima não tem consciência de que está num ciclo de violência,  no entanto, estudos feitos no Rio de Janeiro ( Dossiê Mulher 2019 – ISP) apontam que crimes como ameaça e constrangimento ilegal que estão diretamente relacionados à violência psicológica, cresceram, consideravelmente, de 2017 pra cá.

A mulher que vive num relacionamento abusivo e, por consequência, está num ciclo de violência psicológica, tem muita dificuldade em reconhecer que está nessa condição, ela simplesmente vê-se adoecida, emocionalmente dominada por outra pessoa e, muitas vezes não tem dimensão do motivo. Caso emblemático ocorrido em 2018, foi a morte da advogada Tatiane Spitzner cujo julgamento ocorreu recentemente  e  o teor de parte das matérias publicadas em vários veículos de comunicação acerca de sua morte, indicam que a mesma, foi, durante período considerável, vítima de violência psicológica por parte de seu marido, violência esta, que teve como desfecho o mais grave e cruel tipo de violência contra a mulher, o feminicídio.

São muitos os motivos que levam uma mulher a permanecer num relacionamento abusivo, eles vão desde a crença de que seu parceiro vai mudar, passando pela formação familiar e religiosa com base no patriarcado, até a dependência emocional e financeira. Não é fácil sair desse tipo de relacionamento, uma vez que o abusador age de forma que a mulher, sem perceber, vê-se cada dia mais envolvida nas ações por ele, sutilmente, desenvolvidas para mantê-la sob sua dependência. Portanto, é preciso muita atenção à possessividade disfarçada de zelo e proteção.

Ah, mas ela está nesse relacionamento porque quer. Essa é uma frase muito utilizada para se referir a uma mulher que se encontra num relacionamento abusivo. Não, a mulher não permanece numa situação dessas porque quer, ela precisa de ajuda, uma vez que, geralmente, ela depende, de alguma forma, do seu abusador, o que a impede de romper com a relação. Acolhimento e não julgamento, são ações simples que qualquer pessoa pode tomar e que pode auxiliar uma mulher a buscar ajuda especializada para sair de um relacionamento abusivo e, por consequência, de um ciclo de violência psicológica.

A realidade é que a mesma sociedade que insiste em querer “educar” as mulheres para  ter como prioridade encontrar  um “príncipe encantado” ou a “metade da laranja” como se mulheres nascessem pela metade, é a mesma que julga, despreza e cancela a mulher que se submete, mesmo que inconscientemente, a relacionamentos abusivos.

Da Redação:

Aparecida Veraspara o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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