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NÃO ERA VERDADE (?)

Conta a Bíblia, sede sagrada de verdades, que um rei, Herodes, mandou prender, na Galileia, um homem que se chamava João Batista e que ousava dizer-lhe impossível, porque pecaminosa, sua convivência com uma cunhada,  esposa de um irmão seu chamado Felipe.  Em festa de aniversário da mulher, sua filha encantara o rei com dança sensual que apresentou, e foi tanto que Herodes a ela lhe prometeu entregar o presente que pedisse. Consultando a mãe, a jovem dançarina escolheu pedir, em uma bandeja, a cabeça de João. O rei ficou pensativo, de alguma forma tomado por indecisão, mas, como fizera um compromisso, ordenou a morte e a entrega do presente, que representava, enfim, vingança da mulher que não perdoava a intromissão. Provavelmente, nascia ali a expressão, quase um dogma, “palavra de rei não volta atrás”.

Meu pai, grande marinheiro e político, nascido no final da penúltima década do século XIX, contava que acordos entre homens, qualquer que fosse o negócio de que se tratasse,  eram feitos com fios de bigode, que valiam, como ele próprio dizia, como se fossem assinatura em nota promissória ou qualquer outro título de crédito, todos até então nem conhecidos. Cumprir o compromisso era questão de honra e é possível que aí tenha nascido a expressão “palavra de homem “, algo que não comportava dúvida. Talvez o enfraquecimento desse valor moral, que se foi firmando paulatina e progressivamente na sociedade que se seguiu, possa ter dado origem ao juramento como forma de se fazer crível uma verdade pronunciada.

Hobbes, ao estudar o surgimento do Estado, encontrou razões no Contrato Social de Rousseau para afirmar que o nascimento dessa pessoa jurídica ficta ter-se-ia dado por força da renúncia dos homens ao direito de se dirigirem a si próprios, na vida de convivência com os demais, indispensável segundo o estagirita Aristóteles, e a organização que se seguiu fez surgir a figura da autoridade, competente para organizar as relações em determinada sociedade e com poderes para exigir o cumprimento das normas postas. E como o Estado é uma ficção, do ponto de vista material, quem age em seu nome, quem pratica os atos necessários à manutenção da paz e à organização do desenvolvimento e do crescimento econômico, social e cultural são os homens e as mulheres para tanto escolhidos, investidos de poder que determinadas funções lhes concedem. São Presidentes, Governadores, Prefeitos, Ministros, Secretários, Diretores, Senadores, Deputados, Vereadores, que agem pelo Estado e que por isso são autoridades.

Nessa condição, quando atuam oficialmente, deles, homens ou mulheres detentoras de “múnus” público, é de se exigir compromisso com a verdade, não só por questão de credibilidade pessoal mas porque os administrados precisam saber como se devem comportar.

Pois bem: o mundo vive há mais de ano o fantasma de uma pandemia crudelíssima, com resultados danosos em todos os ramos da atividade humana, hospitais superlotados, mortes que crescem assustadoramente em quantidade em todos os cantos do planeta e é nesse cenário de medo, de incertezas, de desespero que a Ciência avança e chega à invenção de  vacina que pode representar a contenção do mal, e que, por isso, passa a significar a grande esperança de homens e mulheres de todos os cantos e de todas as idades

O Amazonas começou este ano com o recrudescimento da doença que até se havia acalmado e novamente o desespero tomou conta das pessoas, sobretudo os havidos como de grupos de risco, por idosos ou portadores de comorbidades, e foi tal o avanço do vírus que governadores de outros Estados cederam cotas de vacinas a que tinham direito pela divisão equitativa programada pelo Ministério da Saúde para que os daqui fossem assistidos com prioridade. Foi o que se deu com os servidores da saúde, com indígenas e com maiores de 70 anos de idade. Os vacinados transformaram-se, todos, em agentes da esperança de um tempo novo.

No início de fevereiro, em reunião formal com as autoridades maiores do Estado, o Titular da Pasta da Saúde anunciou que a 22 deste mês começaria no Amazonas, para estender-se à região em seguida, a vacinação de mulheres e homens com idade superior a 50 anos. Considerando o que já estava sendo feito, ter-se-ia, a partir do dia indicado pelo chefe do setor, a imunização de residentes no Amazonas com idade entre 50 e 69 anos, que os de mais de 70, de 80 e de 90 já estavam sendo atendidos. Seria um passo largo na direção de controlar o avanço da variante virótica aqui surgida.

A expectativa gerada pelo comunicado oficial, que não há de ter sido pequena, diga-se, não se confirmou e no dia 22 a Prefeitura viu-se obrigada, então, a iniciar um cadastro das pessoas com idade entre 60 e 69 anos, mesmo que o IBGE conheça e indique claramente esses números, e ainda assim nada se disse em relação aos de 50 a 59 anos. Não se confirmou o compromisso oficial e os amazonenses dessa faixa etária, frustrados na expectativa da esperança, desapontados com o que não foi verdade,  não conhecem as forças que podem ter impedido a execução da ordem ministerial.

Da Redação: Lourenço Braga para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

 

 

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