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OS DEMÔNIOS QUE PASSEAVAM EM MARÇO

A transição daqueles dois meses foi um evento mais escuro do que o negrume da caverna onde habitam os quirópteros sanguinários. Fevereiro já estava exausto, cansado, extenuado, quando março se escancarou irônico e absolutamente dissimulado. Os homens ainda se regeneravam das alegrias carnavalescas, combalidos nos lençóis da ressaca e da depressão pós-festiva da carne. As mulheres confabulavam com a sua consciência acerca das paixões vindouras, contraídas nas noites do júbilo lacônico. Fevereiro fechava a boca, para março abrir a sua, engolindo os nossos sonhos e a nossa sobrevida. E nada era assim tão diferente, ou dava sinais de que os demônios estavam viajando para nós, pois cedinho a gente já acordava para buscar a comida do prato e angariar algum recurso para pagar os cobradores incompassivos que nos caçavam, e que seriam caçados também.

Enquanto lá nas vilas o sossego era relativo, sem algo que tornasse a convivência social extraordinária, e nem os relacionamentos mais doces, algumas celeumas já faziam as pessoas pressentirem de fato que o porvir se anunciava danoso, maléfico e perigoso. Dentro das fábricas, escolas, universidades, bares, restaurantes, lojas, academias de ginástica, nos pardieiros, e até mesmo nas praças, os cidadãos se exaltavam com os rumores e especulações acerca dos vírus que estavam a caminho das vilas amazônicas; rumores estes que só se intumesciam a cada raiar de dia que veio trazido pela canoa perversa daquele mês de março, que nunca mais seria esquecido.

Mas era tudo verdade, e os vírus desembarcaram cáusticos e imponentes na grande aldeia amazônica. Chegaram coléricos dentro do vento, dormentes em algum corpo moribundo, refrigerados na ‘apressassão’ das águas, ou inativos no bico desenxabido de algum pássaro ordinário que migrou para a Amazônia. E numa assombrosa e presente era de calamidades, as notícias se oficializavam, as determinações sociais de institucionalizavam, a realidade se alastrava por cima das vidas, e as mentiras se aproveitavam de toda a desventura dos dias para ganhar prestígio nas bocas dos homens mais interessados em oportunizar a morte do que em salvar almas.

Às terças-feiras as crianças iam para a natação, as sextas os adultos se encafuavam nos bares inflamados e revigorantes das cidades, aos domingos as famílias iam aos shoppings, às igrejas, às praias, e na primeira dezena de dias de março, ninguém mais ia a lugar algum, exceto os corpos inertes, esvaziados e mortificados, que andejavam solitários para as covas aquecidas dos cemitérios atulhados. Os demônios passeavam gemebundos e ávidos por vidas. Eles eram sentidos por todos os lados: nos fundos dos quintais abandonados, nos andares suntuosos dos condomínios, nas ruas despovoadas, nas camas preenchidas de medo, no pavor do desconhecido, e na incredulidade de muitos, inclusive na minha.

Me recordo com imenso desgosto de quando o meu coração se recusou a acreditar naquele apocalíptico e nefasto contexto anunciado. Tudo em mim era quimera, ficção, factoide. E eu bebia umas cachaças para desdenhar dos demônios que os meus olhos não viam, mas que moravam dentro da visão daqueles mais prudentes do que eu. Ao meu lado, mais túrbida do que os cardumes fugindo do tubarão em disparada, e mais transtornada do que mãe enterrando o filho escravo das drogas, Dona Andalúcia, a minha vizinha, cautelosa como era, baixou decretos internos proibindo todos de sua casa a saírem, pois os demônios estavam espreitando os desleixados e desobedientes. Era verdade sim!

Não demorou muito mais horas para que os povos da floresta mais nababesca e poderosa do Universo fossem saqueados de vida pelas diabruras virais que assolaram os lares, em todos os cantos continentais das matas, mormente na capital da Amazônia. Aquilo não tinha nada a ver com o arrebatamento tão celebrado nas Escrituras Sagradas, nem com o regresso do Messias em colossal e espantoso aparato celestial. Aquilo era uma turba de demônios famintos, como zumbis que esfolavam os corpos viventes, sem piedade ou respeito, martirizando gentes aos milhares, inaugurando sensações conhecidas e desconhecidas, marcando a humanidade com as chagas da ruína e da desolação.

O sentimento de medo nada parecia diante do pavor de morte que se instalou nas almas. O homem foi reduzido a nada, diminuído, arquejante, apodrecido, débil, insensato, zombador, cético, escarnecedor… A mim, a quem um demônio veio abraçar pessoalmente, passeando dentro das minhas artérias murchas, restaram apenas diálogos de mim mesmo com uma entidade imaterial, viral, pandêmica, que se rebelava em meu íntimo, e eu me debatia, sucumbindo à monstruosidade inacreditável que havia algumas horas era apenas uma falácia, uma conjectura. E ao se apossar de mim, ele entronizou-se em todos os setores da minha carne, mas escolheu o meu peito inteiro para aquartelar-se, para comandar, e para se vangloriar de seu poder letal.

Quando ele me abraçou, os meus pulmões se transformaram em pequenas bolhas de ar, os meus olhos ardiam como o fogo da explosão inesperada, o meu couro queimava que nem o óleo da frigideira esquecida, a minha cabeça doía de desmedida forma, comprimindo o meu cérebro, estreitando o meu córtex. Eu tossia que nem um tuberculoso desesperançado, e isso fazia com que o meu peito rangesse feito um violoncelo desafinado, envelhecido, desgastado seco e sem catarro. O demônio ria de mim, me tinha nas mãos, e debochava do meu ceticismo, virando a ampulheta das minhas horas parcas, desdenhando e gritando que a minha oração era inútil, mas mesmo assim eu cria nela, de alguma forma.

O meu choro era inaudível, assim como a minha morbífica respiração, e os meus músculos eram mais parecidos com varais vazios. A assustadora possibilidade de ser intubado e invadido era mais voraz do que o medo de morrer em casa mesmo, quando nos leitos hospitalares espalhados pelas cidades os demônios eram mais triunfantes na morte, porque a ausência escandalosa de comiseração nos hospitais acelerava as desgraças alheias. Esse pânico se associava, em abraços fortes, com a triste realidade dos corpos pútridos que eram amontoados por todos os cantos, fazendo lembrar o Holocausto mais exterminador que conhecemos, onde não havia individualidade mortuária, mas tragédias obituárias coletivas.

Março não pretendia acabar, e teimava, porque abril nos aguardava ainda mais famigerado, onde o reinado fastidioso dos demônios parecia que duraria muitos e açorados meses. Eu escolhi morrer em casa, assim como muitos iguais a mim, porque este era o sentimento que me restava. A fé não se podia enxergar nem por microscópios, e a esperança era mero vocábulo. Mas a inutilidade humana, expressiva como não é a sua crença em Deus, não pode ser compreendida por estudos psicanalíticos quaisquer. Somente Deus pode escrever sobre a equivalência do seu amor por nós, que merecemos o inferno. Não à toa os demônios, em legiões virais, vieram ter conosco, e nos massacraram.

As orações que, ao meu entendimento eram anêmicas e langorosas, sem autoridade nenhuma, aos ouvidos de Deus, todavia, soavam como um estrondo de bombas de nitrogênio lançadas sobre a morada do Belzebu, o máximo demônio que destroçava os fenícios, o capitão de satanás. E mesmo tendo assistido à dizimação dos milhares de compatriotas meus, e de muito queridos da minha vida, eu pude ser alcançado pela gloriosa e inexplicável misericórdia do Eterno, que por mim pelejou, derrotando o demônio que furava o meu peito com a espada da retaliação.

A fraqueza física que se tornou em mim uma herança em forma de sequela, a escuridão que, amiúde, visita as minhas vistas, o fogo ardente que ainda mora nas minhas ventas, o ar que esporadicamente se retira do meu interior, e as dores de cabeça que parecem enraizadas no meu juízo, todas essas coisas juntas, às vezes, mesmo impondo ao meu coração o reconhecimento do poderio demoníaco, nunca serão capazes de me fazer desacreditar que os demônios que passeavam em março, e que fizeram de abril e maio o seu apogeu da infecundidade e do perecimento humanos, podem ser mais poderosos do que o Deus do Universo, que toma pelos braços o mais vil dos seres, que nem eu era, e que são merecedores da extinção, e oferece mais uma chance de modificar o seu próprio destino, respeitando a vida e os outros. Deus me tirou das mãos da morte. Os demônios, ao que nos parece, que foram embora. Ou ainda não! Somos sobreviventes!…

Da Redação:

Paulo Queiroz para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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