Portal Voz Amazônica

Os elementos constitutivos do sagrado e do terreno na obra de Raimunda Gil Schaeken

Cada escritor edifica ou ergue como ‘herança social’ os elementos do seu imaginário, do seu real, do seu concreto, ou ainda, do seu ilusório. Samuel Johnson afirmou que “a maior parte do tempo de um escritor é passada na leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro”. Ele está correto. Essa é a dimensão dos esforços que o escritor exerce – quase sempre na solidão – a fim de que sua obra nasça. O tempo é um desses elementos: crucial, precipitado, avexado, paciente, favorável, oponente, adversário

Alguns denominam isso de legado, outros de cabedal de poder. É, ser escritor é ter um poder, que em nada tem a ver com o poder de domínio, de mandato, de ordem. Trata-se de um poder de fazer ou não, pois a liberdade de escrever é que ocasiona as heranças literárias. Raimunda Gil Schaeken é a dona de um arcabouço literário elogiável, e parece que, nesse particular, ela fez uma parceria com o tempo, pois produz seus longos escritos sem atropelos.

Raimunda Gil Schaeken é a dona de um arcabouço literário elogiável, e parece que, nesse particular, ela fez uma parceria com o tempo, pois produz sem atropelos. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

Nós do PVA fomos lá, com o Programa “Autores da Amazônia”, da Rádio Cultural da Amazônia e do Portal Voz Amazônica, conferir de perto os detalhes da ambiência onde nascem obras espiritualistas e histórias que selam a história geral com episódios que jamais serão esquecidos. Nossa equipe (sob a direção de Synthia Queiroz) entusiasmada com a aceitação da escritora, alastrou-se na casa dela com a alegria de quem iria registrar momentos muitíssimo especiais sobre a vida de uma autora importante. A nossa equipe, claro, ínfima diante da grandeza literária dessa escritora amazônica, sentiu-se orgulhosa e cheia de exclusividade.

A glorificação da escrita

Na obra de Raimunda Gil Schaeken estão presentes as mais significativas representações elementares que compõem a historicização do sagrado, bem como as configurações da cultura histórica, terrena, e da sociedade que circunda essa autora. Sua produção agrega representações estruturais de uma literatura teológica envolvente, de um simbolismo filosófico traçado pelo real histórico, cujos núcleos giram em torno de suas percepções pessoais de vida, intimista, personalíssima, mas voltada para o registro perene de todos os desafios de se construir caminhos e comunidades no Amazonas.

Na obra de Raimunda Gil Schaeken estão presentes as mais significativas representações elementares que compõem a historicização do sagrado, bem como as configurações da cultura histórica, terrena, e da sociedade que a circunda. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

A base de sua criação está nos seguintes elementos: as pessoas, as vivências, as observações, os sentimentos, as narrativas, os olhares, as crenças, as virtudes, as influências vitais, os caminhares, as estradas, as matas, os interiores (mormente Tefé), as ruas, as igrejas, os cultos, os amores, as famílias, os filhos, os netos, as missas, as missões… Tais coisas nos trazem a compreensão de que Raimunda Gil Schaeken representa bem os signos da criação humana, da hermenêutica inevitável, e também a sua íntima relação de autora com a literatura plural (muito além do sagrado) e com a sociedade. Na prática, bem na real mesmo, ser escritor é esperar de si mesmo as virtudes que escrevemos. E elas existem, a partir do momento que amamos este ofício sem reservas. Raimunda Gil ama!

O número de obras significativas e expressivas publicadas até aqui, dão a ela – no nosso modo de entender – o status de escritora atual mais importante de Tefé (cidade onde nasceu). É claro que ao se deparar com essa impressão, ela demonstrou a respeitável postura de quem jamais utiliza o demérito de terceiros para elevar-se a si mesma ou para dar a sua obra o caráter de superioridade; a sua ética perceptível não permite agir assim. A humildade e a galhardia são comportamento que vemos e sentimos logo num primeiro e mais simplório contato com ela.

Declaração de amor a Tefé

As andanças de um escritor são fundamentais para a concepção de suas histórias de vida, e das vidas e obras de terceiros, de vidas humanas, de vivências. Raimunda Gil Schaeken declara em seu sorriso e olhar o amor pela sua cidade natal, Tefé, cravada num canto especial do continental estado do Amazonas. Tudo começou lá, e a nada presumida tradição familiar delineou em sua trajetória de mulher criada à sombra dos regimes religiosos – quer nos estudos, quer no amor –, símbolos que a orientam até hoje, e que lhe atribuíram uma formatação de alma que acredita na fé como um esteio que segura um barraco precioso e cheio de amor.

Ela é bem mais jovem de mente do que muitos de nós, que esquecemos facilmente das coisas. Canta hinos com a lucidez e animação invejáveis, tanto quanto é enérgica e empolgante nas declamações que faz. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Sua formação é solidificada (basicamente na seara das irmãs Franciscanas Missionárias de Maria), e graduou-se em Letras, História e Teologia. Deus é a estrada por onde os seus pés de mulher amazônica têm buscado trilhar na construção de seus laços familiares, de amizade, de valores culturais e educacionais. Raimunda Gil Schaeken, além de escritora, historiadora e biógrafa, é professora de carreira, e formou muitas gerações em Tefé e nos municípios circunvizinhos. A literatura, a religiosidade e a educação são o tripé que consolidou a sua vida de mãe, esposa, avó, bisavó, amiga e parceira das iniciativas culturais amazônicas. Ela escreve tudo e todos, mas as raízes de sua existência e história de vida em Tefé, são as marcas inexoráveis de sua escrita, e que as suas mãos de autora experiente não conseguem comandar: Tefé está em tudo, assim como tudo está no Amazonas.

Entrevista mais que especial e honrosa concedida a seu conterrâneo, escritor, jornalista e radialista Paulo Queiroz, Programa “Autores da Amazônia”, da Rádio Cultural da Amazônia e do Portal Voz Amazônica. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

Em entrevista mais que especial e honrosa concedida a seu conterrâneo, escritor, jornalista e radialista Paulo Queiroz (razão extraordinária de orgulho para nós do PVA), ela não conseguia – e em momento algum tentou – disfarçar a sua desmesurada saudade e ligação com Tefé. Raimunda Gil descende de uma linhagem cuja nobreza reside na respeitabilidade e nos afetuosos projetos de comunhão com as pessoas. Francisco Gil e a dona Alzira de Castro conceberam para a Amazônia uma grande escritora. E lá em Tefé, Raimunda não enterrou apenas o seu umbigo. Ela plantou a sua história familiar, como flores que são regadas até os dias atuais. Os registros fundamentais – mas há muito mais escrito por ela – estão na obra “Tefé: Minha Saudade”.

Êmina, Annie e Pierre, filhos que orgulham a escritora inspirada; prole virtuosa e encaminhada na vida, é também razão de estímulo para a produtividade de uma mulher que nunca para de escrever. A visibilidade do amor familiar é de fato o sentir mais importante da vida humana. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

Raimunda Gil Schaeken só se mudou de Tefé porque o rombo de saudade que os filhos que vieram para Manaus deixaram nela e em seu esposo (o ex-sacerdote, grande professor holandês e meticuloso entusiasta do progresso, Petrus Jacobus Schaeken) foi insurportavelmente mais poderoso do que a sua incontida vontade de permanecer lá. Em Manaus, com o marido, o estimado “professor Pedro” (já recolhido pelo Eterno, e que sofreu de Alzheimer), ela delineou uma história admirável de adaptação e de crescimento na capital. E acerca do Alzheimer de seu esposo (assim como o câncer de mama que a escritora enfrentou), e outros desafios da existência humana, a autora retratou essa epopeia extremamente espinhosa em uma obra específica: “Enfrentando com Fé a Doença de Alzheimer”. Obra que merece leitura atenciosa, experimental e didática.

O holandês Petrus Jacobus Schaeken, o “Professor Pedro”, estimado de Tefé, seu esposo e grande companheiro, que morreu de Alzheimer. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

Nunca faltou quem inspirasse a escritora tefeense Raimunda Gil Schaeken. Seus próprios filhos, como exemplo-mor disso, são as luzes mais cabais que mais intensamente alumiam a sua frente. Êmina, Annie e Pierre, filhos que orgulham essa escritora inspirada; prole virtuosa e encaminhada na vida, é também razão de estímulo para a produtividade de uma mulher que nunca para de escrever. A visibilidade do amor familiar é de fato o sentir mais importante de nossas vidas.

O sagrado, o histórico, o afável

E ainda dentro desse conceito especial de inspiração, Raimunda Gil Schaeken celebra a existência de pessoas que simplesmente nortearam a sua vida pessoal, donos de legados que nunca poderão ser desfeitos ou contestados. Nesse sentido, a autora escreveu obras absolutamente relevantes para a literatura histórica e biográfica, que são verdadeiros presentes para a cultura e a educação amazonense, sobretudo tefeense. Podemos seguir adiante à vontade, afirmando com muito compromisso que as obras de Raimunda Gil são algo extremamente importante para ficarem restritas às prateleiras do tempo. Elas têm que estar nas escolas, nas mãos, sob os olhos de leitores inteligentes e comprometidos com o avanço do conhecimento.

“FMM: Vida e Missão Neste Chão – 90 Anos” (livro dedicado à trajetória das Irmãs Franciscanas de Maria); “As Obras e os Desafios de Dom Joaquim de Lange”; “Desudeth Barros Roberto: Exemplo de Empreendedorismo”; “As Lembranças de Maria Adalva Cavalcante Mustafa”; “Dom Mário Clemente Neto CSSp: Um Missionário a Serviço do Amazonas”; “Datas Cívicas e Comemorativas”; “Jacobus Appelman:    “Jubileu de Ouro de Padre Antônio Jansen”, e outras obras. Aliás, no que concerne a esta última, seria muito apropriado mencionar que não apenas à escritora Ramunda Gil Schaeken o Padre Antônio serviu de inspiração, mas a todas as gerações da nossa querida Tefé. Ele faleceu há pouco tempo. Que o Eterno o tenha.

Padre Antônio Jansen”, e outros sacerdotes que amavam Tefé, também foi grande inspirador da escritora Ramunda Gil Schaeken, e era amado por muitas gerações. Faleceu há pouco tempo. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

Todas essas obras aqui apresentadas são despidas dos vícios literários comuns do obscurantismo e da compilação despropositada. São obras que cravam sem volta, inteligentemente, as odisseias sacerdotais, construtoras de gerações na história de Tefé, um dos municípios mais importantes da Amazônia: berço e seleiro de grandes almas artísticas, de grande poetas, escritores, professores, juristas, empresários…

O câncer, a ooferectomia, a nefrectomia, a cura e agratidão

Deixaremos para o leitor ávido o conhecimento completo e pormenorizado sobre esse tempo tão tétrico e sofrido da vida da escritora Raimunda Gil Schaeken, que está inserido integralmente na primordial obra “Uma História de Vida”, disponível para venda. Porém, o que se pode dizer sobre o câncer, que é algo, infelizmente, tão corriqueiro? A descoberta, a resignação, a dor, os prantos quase sem estanque, os tratamentos invasivos, as renúncias, os pavores da morte, o sentimento de inferioridade terrena, de impotência.

Raimunda Gil Schaeken é uma escritora lutadora, uma mulher batalhadora, guerreira, que enfrentou o câncer, a ooferectomia, a nefrectomia, e foi curada. Ela é eternamente grata. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

Heróis não somos nós que jamais experimentamos tamanhos desafios na vida. Heróis são aqueles que suportam esses pesos, cheios de amargores, mas com a esperança da restituição da vida, da volta por cima, com lutas desmedidas. Diagnósticos perturbadores que alteram vários aspectos da vida de uma pessoa. ‘Bater de frente’ com esses infortúnio sempre será uma tarefa extremamente difícil.

 

Raimunda Gil Schaeken é uma escritora lutadora, batalhadora, guerreira, e da mesma maneira que enfrenta as dificuldades de se estabelecer nesse difícil e ainda pouco prestigiado mundo da literatura amazônica, ela também enfrentou os inimagináveis desafios da busca da cura. E foi curada, graças ao amor de Deus e de muitas pessoas envolvidas, contudo, a sua força interior e espiritual é que foi a protagonista mais fundamental na sua sobrevivência.

 

A autora rende gratidão a todos – e não são poucos – os que participaram direta e indiretamente no processo de cura e restabelecimento de sua vida. E quem agradece ainda mais é Tefé e o estado do Amazonas, que têm ainda entre nós uma escritora que ama tanto a sua terra e o seu povo que não consegue deixar de tratar tais coisas como fontes de inspiração inesgotáveis. Ainda bem, porque são poucos os que amam escrever o seu povo de modo tão devotado.

O que há de melhor no sentido da cura, está impresso no sorriso envolvedor da escritora Raimunda Gil Schaeken. | Foto: Paulo Queiroz/PVA.

O que há de melhor no sentido da cura, está impresso no sorriso envolvedor da escritora Raimunda Gil Schaeken. Sorriso que não faz, em tempo algum, oposição à satisfação de estar viva para poder prosseguir na sua honorífica missão de historicizar as vidas amazônicas, a arte, e trabalhar com o afinco e a desenvoltura de sempre na fabricação do futuro amazonense.

Uma autora respeitada

O pertencimento de Raimunda Gil Schaeken a instituições de produção cultural, artística e educacional é vasto. Temos imenso prazer em poder dizer que ela pertence à Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-Amazônicos (ABEPPA) e à Academia de Letras e Culturas da Amazônia (ALCAMA), entidades mantenedoras deste Portal Voz Amazônica e da Rádio TV Cultural da Amazônia.

Raimunda Gil Schaeken pertence à Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-Amazônicos (ABEPPA) e à Academia de Letras e Culturas da Amazônia (ALCAMA), entre outras entidades culturais e educacionais. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

E também é membro efetiva de entidades coirmãs poderosas na práxis cultural e educacional, e que de igual modo nos enchem de imenso e bom orgulho: Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas (ALCEAR), Academia de Letras do Brasil (ALB/AM), Associação dos Escritores do Amazonas (ASSEAM), Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB/AM), e é presença assídua nas regulares e clássicas páginas do jornalismo institucionalizado do Boletim Notícias da Corte do Solimões.

A autora é também acadêmica de outras entidades coirmãs poderosas na práxis cultural, e que de igual modo nos enchem de imenso e bom orgulho. | Foto: Synthia Queiroz/PVA.

A equipe do PVA, e o Programa “Autores da Amazônia”, da Rádio TV Cultural da Amazônia e do Portal Voz Amazônica, se sentem desarmados de palavras que façam jus à nossa gratidão por momentos tão sublimes ao lado de uma grande produtora de literatura e de educação. Todo o carinho a nós dirigido, os abraços, o aconchego daquele lar, o alimento delicioso servido, proporcionado ao nosso jornalismo com o coração amável, com a amizade, com a alma… Um ambiente farto de liberdade intelectual e propício à produção literária incessante.

Tudo que se disser sobre Raimunda Gil Schaeken nunca terá a completude esperada sobre uma vida dinâmica, que não se detém no tempo, e naquilo que muitos convencionaram chamar de velhice. Ela é bem mais jovem de mente do que muitos de nós, que esquecemos facilmente das coisas, enquanto ela, por exemplo, se lembra de músicas e dos motes de campanhas eleitorais dos anos 70 e 80, e os canta com a lucidez e animação invejáveis, tanto quanto é enérgica e empolgante nas declamações que faz.

E mesmo ainda tendo muito por vir à frente, quase tudo já existente na vida de Raimunda Gil Schaeken e se pode contemplar em uma de suas obras mais líricas e afáveis que ela já concebeu: “Uma História de Vida”. Deus abençoe essa escritora querida e respeitada, e que ilumine a sua mente e lhe dê muita graça e vigor para criar muito mais em favor dos nossos povos.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:

Da Redação:

 Paulo Queiroz para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia.

você pode gostar também
1 comentário
  1. Marta Cortezão Diz

    Linda matéria, Paulo Queiroz. Um trajetória de vida maravilhosa. Vida longa à nossa querida professora Raimunda Gil.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.