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TODO PODER AO POVO

Ayres de Britto, um dos grandes ministros a ter assento no STF – ele foi o relator da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental 130, que enterrou a famigerada Lei de Imprensa – costumava dizer, maravilhado, que vivíamos numa Idade Mídia, em contraponto à Idade Média, assegurando, em seus inquestionáveis votos, com todas as letras, a prevalência do direito de expressão do pensamento, de comunicação e de informação em nossa ordem jurídica, especialmente quando envolvidos homens e negócios públicos, cuja proteção da honra deveria ser mitigada, por motivos óbvios.

De fato, cada um de nós, graças ao avanço tecnológico, somos hoje, ao mesmo tempo, produtores, emissores e receptores de informação, bem como formadores de opinião, tudo isso em tempo real e à distância, apenas, de um clique no celular. É fantástico, pois não existem mais intermediários entre, por exemplo, o agente político e o cidadão, que vota, é bem verdade, mas pode depois vigiar o eleito, cobrá-lo para que reveja posições, para que adote determinado caminho e, em último caso, para defenestrá-lo, através de manifestações nas ruas, do poder que temporariamente ocupa.

Há quatro ou cinco anos, aliás, as redes sociais já estavam inundadas com a seguinte expressão: “Esses caras não me representam!” Recado para os políticos em geral, os quais já não cumpriam, com raras exceções, o papel sagrado de atuar em nome e no interesse da população. Antes disso, surfando num mar de escândalos e desfaçatez, cuidavam – e a maioria ainda cuida, basta ver as barbaridades cometidas durante a pandemia de Covid-19- de suas agendas privadas, enriquecendo ilícita e ousadamente…

No passado o crescimento das cidades tornava necessária a chamada democracia representativa. Com a Internet e com as redes sociais, entretanto, os cidadãos podem debater os temas que lhes afligem e, em grandes assembleias virtuais, indicar aos representantes quais os rumos que se devem tomar. Eu já disse, faz algum tempo, que é a reedição, em escala substancialmente maior, da ágora ateniense, onde surgiu o conceito de democracia. Os homens livres se reuniam nas praças e votavam as questões de interesse da polis. Na Roma Antiga, os plebeus (o povo), por vezes, eram chamados para decidir no voto, em comícios, questões que lhes eram sensíveis, daí o termo plebiscito.

É claro que, tão cedo, não se poderá dispensar, simplesmente, a representação. Ela deve, porém, ser repensada e, de outro lado, a participação direta do povo na deliberação de ações de governo deve ser expandida. Os dois sistemas conviverão ainda por um tempo razoável. O primeiro cada vez mais fiscalizado e tangido pelo segundo, até que a ágora virtual e a sociedade plebiscitária encontrem um mecanismo que dê efetividade às suas aspirações. De qualquer modo, com a transparência, a instantaneidade e o poder de mobilização da intermídia, de uma coisa podemos ter certeza, os dias do político corrupto, desidioso e cínico estão contados. Assim seja!

Da Redação:

Júlio Antônio Lopes para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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