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TRIBUTO A ERNANI GARCIA

Quando criança eu costumava sentar no colo do meu pai para que ele me contasse algumas histórias e me explicasse as coisas simples e complicadas do mundo.

Certa feita eu lhe perguntei: “Pai, por que é que a gente nasce, se é pra morrer?”. Papai, que lia muito, que acreditava muito em Deus e que sempre tinha uma resposta reconfortante para me dar, com toda paciência me respondeu, citando santo Agostinho e o padre Vieira: “Meu filho, a gente não nasce para morrer; a gente morre para renascer”. Quando perdi a mamãe e depois o papai eu me lembrei daquela nossa conversa, encontrando nela consolo e paz para o meu coração. E, ao fim do luto, natural e necessário, pude agradecer a Deus pelo privilégio de me presentear com a oportunidade de tê-los como pais, conservando as boas lembranças e tudo o que passamos como fontes de minha edificação.

É isso, em síntese, o que sinto e o que posso dizer diante de uma grande perda, como aconteceu na quarta-feira passada (14/07), com o trespasse de Ernani Garcia dos Santos, de quem me aproximei e me afeiçoei graças ao nosso amigo comum Gaitano Antonaccio, uma espécie de irmão espiritual dele, que nos levou, em momentos distintos, para o ambiente acadêmico literário, que vivíamos intensamente. A toda convocação, a toda discussão e a toda necessidade de colaborar com as entidades de que participava, Ernani atendia de forma pressurosa. Nunca foi de pegar o medalhão, guardar na estante, inscrever o título no currículo e se ausentar. Era um acadêmico modelo, sempre presente em nossas reuniões de trabalho, encontros sociais e saraus, onde invariavelmente nos encantava com a declamação de lindos poemas que sabia de cor, como “O adeus de Teresa”, de Castro Alves; o “Soneto da fidelidade”, de Vinicius de Moraes; e, ponto alto, onde mais se destacava a sua emoção e eloquência, “Cisnes”, de Júlio Mario Salusse, que Ernani oferecia para a sua amada esposa Odnéia. Na Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas (ALCEAR), que tenho a honra de presidir, ele lustrava a cadeira de nº 23, cujo patrono é Waldemar Pedrosa. Integrava, também, desde os primórdios, a Associação dos Escritores do Amazonas, a qual presidia ao falecer.

Ernani era um colosso, uma inteligência! Tanta, que Gaitano lhe chamava carinhosamente de “monstro”. Ele era graduado em Economia, em Administração, em Direito e em Letras; fluente em inglês e espanhol; e foi professor, vejam que coisa rara, de Português e de Matemática. Teve uma vida pública exemplar. Exerceu, dentre outras importantes atividades, o cargo de delegado da Receita Federal no Amazonas, o de presidente do Instituto de Planejamento Urbano da Prefeitura de Manaus e o de secretário de Estado de Planejamento, Indústria e Comércio. Foi distinguido com as medalhas do Mérito Santos Dumont, do Mérito Tamandaré, do Mérito do Alvorada e do Mérito do Rio Branco. Filólogo, Ernani escreveu, com sua filha Alessandra, uma obra monumental, de mais de mil páginas, adotada por universidades e, inclusive, pela criteriosa Escola de Administração Fazendária (ESAF): “A Língua Portuguesa sem mistério”, em cuja nova edição ele trabalhava.

A vida é assim, tem inicio, meio e fim. O fundamental, para este plano físico, é o que fazemos no meio. Por tudo o que foi, por tudo o que fez e por tudo o que deixou para sua família, para a sua legião de amigos, para seus confrades de ALCEAR e de ASSEAM, para a sociedade, enfim, Ernani viverá para sempre em nossas lembranças e em nossos corações. Fica a saudade, que no dizer do poeta é a vitória do amor sobre o tempo e sobre a distância. Agora, renascido para a vida eterna, ele gozará da recompensa que o nosso Deus, revelado pelo Senhor Jesus, reserva aos bons e aos justos.

Da Redação:

Júlio Antônio Lopes para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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