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UM MAR EM MARIA

Olhava fixamente aquela linha que se esticava longe separando mar e infinito horizonte. Estar ali lhe remexia de uma maneira especial por dentro e, ao mesmo tempo, lhe causava uma estranheza tamanha. Nunca esteve naquele lugar, contudo a sensação era de que estivesse estado sempre. De alguma forma sentia que esteve ali, não saberia explicar. Não tinha respostas, nenhuma, apenas sentia e entregava-se a esse prazer de sentir. Com setenta e nove anos nas botinas da vida e estava ali por primeira vez redesenhando em seu caleidoscópico paneiro de recordações (tão distantes, tão vagas, mas tão vivas…) o caminho que seus avós Francisco e Maria Jesuína haviam feito, desde aquela provinciana e pequena cidade de Messejana, no Ceará (agora um bairro) até o perdido Eldorado do Norte. Tempos duros, de fome, de estradas, de chão de terra, de caminhos incertos, de constantes perigos, de muitas dificuldades. Sua família foi buscar e plantar esperança no Norte. Primeiro veio o avô Francisco, arranjou trabalho duro para uma vida dura nos seringais do Acre e com o passar do tempo, com muita luta diária, prosperou e mandou buscar a família, “a vovó, meus tios e tias e minha jovem mãe”, pensou Maria Arlinda com o olhar caminhando sem pressa pela linha comprida que contornava o horizonte que tinha diante de si.

A família reunida foi uma grande alegria para todos, podia ver e contemplar o sorriso cunhatã de sua mãe se desenhando naquele infinito azul. “Como seria maravilhoso estar presente naquele momento não vivido!” e continuou pensando no amor que não pode receber do avô, que morreu de uma febre constante, sem fim, talvez malária, o corpo só esfriou com a morte mesmo. O tio Jeremias, que num descuido trágico, foi alcançado por uma árvore que lhe ceifou infante vida…

A ausência do avô trouxe tantos problemas. Maria Jesuína não pode continuar no Acre, sentiu-se só sem saber que rumo tomar; sem o conhecimento necessário dos negócios que tinha o marido, viu-se obrigada a vender as poucas propriedades; o peso da viuvez lhe saiu caro, a sociedade não perdoa (nem gostava de pensar nisso, mas a vida foi assim de dura com as mulheres, sempre). Portanto, Jesuína não viu outra saída: vendeu tudo e foi viver com os filhos na Ilha do Ariá, nas proximidades do município de Coari, dentro do rio Coari Grande, nos confins do Amazonas, onde vivia o irmão Alberto que, dentro do que pode ser, foi o melhor e mais importante apoio que Jesuína pode ter, do seu jeito peculiar de ser. “E a vida seguiu seu curso como esse mar, gigante feito dragão, que agora mesmo desfila bem diante de mim”, pensou.

Tanta gente que a vida não lhe permitiu abraçar! Essas lembranças não lhe visitavam com dor, mas sim com amor, o amor que guardou para o avô, para o tio, para todos aqueles que se foram sem que a vida lhe pudesse presentear com o prazer da convivência, um amor que cresceu em seu peito e brotava em momentos especiais como aquele que estava vivendo agora e que lhe enchia de uma forma especial de sentir o pulsar da viva em seu peito. Veio em sua mente o rosto de sua mãe Ana Maria, que já há alguns anos havia feito a travessia, essa que todos faremos e para a qual nunca estamos preparados. Ana Maria era dona de um olhar severo, mas que no fundo escondia uma docilidade cor de mel. Era uma mulher sensível que aprendeu ser dura por necessidade e que travou muitas lutas para ser dona não apenas de seu olhar, mas também de seu próprio destino. Agora Maria Arlinda ali – com seu olhar feito um passarinho pousado no aconchegante ninho, naquela imensidão azul de céu e mar – era um pêndulo que se balança agarrada no fio do horizonte, sentia-se leve balanceando entre as fendas do presente e passado, do passado e do presente, tudo se entrelaçava e, ao mesmo tempo, tudo era cada vez mais nítido… Era ali que queria estar, era ali o lugar perfeito para sentir…

Deu-se conta de que aquele azul que banhava seus olhos era o mesmo azul que fazia morada nos olhos de sua avó Jesuína, em especial, quando ela lhe contava sobre as histórias vividas junto a seus pais e irmãos em Messejana, naquela casinha pobre, naquela rua muito pobre de barro batido, naquele chão de muita pobreza.

Sentia os pés na areia fofa e úmida de uma entre tantas praias de Fortaleza… sentia os pés no mundo e o coração afagava a alma. “Existe um mar aqui diante meus olhos e há outro dentro de mim”, constatou Maria Arlinda.

Da Redação:

Marta Cortezão para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

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