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VIOLÊNCIA POLÍTICA DE GÊNERO COMO FORMA DE INVISIBILIZAR A PRESENÇA FEMININA NOS ESPAÇOS DE PODER

Ao longo de sua existência, a sociedade patriarcal sempre agiu de forma a reduzir a mulher à condição de cidadã de “segunda classe”. O filme “As sufragistas” retrata bem essa realidade, ao abordar a saga de algumas mulheres, em busca do direito de votar e serem votadas na Europa do século XIX. Às que estiveram à frente do movimento eram constantemente ridicularizadas e oprimidas pelos homens, com ações que iam desde a publicação de charges degradantes até a violência física e a prisão, mas nada as impediu de lutarem como uma garota deve lutar.

No Brasil, não há como falar sobre a luta feminina por representatividade na política e violência política de gênero, sem falar de uma das pioneiras do movimento sufragista em terras brasileiras, Leolinda Daltro. Leolinda foi uma professora com ideias e ações muito à frente do seu tempo, antes de aderir ao movimento sufragista, foi uma indigenista convicta, defendendo a ideia de integrar os indígenas à sociedade por meio da alfabetização sem conotações religiosas, quando à época,  a intenção era catequisar os indígenas afastando-os, totalmente, de suas culturas.

Por sua atuação, Leolinda sofreu todo tipo de violência em razão do gênero. Adjetivos como louca de hospício, excêntrica, aproveitadora e herege, foram alguns dos quais teve atribuído a si. Foi impedida de participar de um evento que considerava importantíssimo em sua trajetória acadêmica, o primeiro Congresso Brasileiro de Geografia, ocasião em que apresentaria propostas acerca da política indigenista do país. O motivo do impedimento? Ser mulher. Todas essas dificuldades que a impediram de levar a frente seus projetos sociais e acadêmicos sobre a causa indígena, a fizeram repensar seu prélio, levando-a a iniciar uma nova luta pela igualdade de gênero e, consequentemente, pelo sufrágio feminino. Foi a precursora do movimento feminista no Brasil. Criou o Partido Republicano Feminino em uma época em que as mulheres sequer tinham direito de votar, dando início ao movimento sufragista no país, movimento esse, que mudaria não só a vida dela, mas de todas as mulheres brasileiras.

Não obstante o Brasil ter sido um dos países pioneiros na discussão do tema e na instituição do voto feminino na américa latina, a violência política de gênero tem sido, historicamente, um fator de desestímulo e silenciamento das mulheres para o ingresso e permanência na vida política. Segundo a ONU mulheres, entre 20% e 80% das mulheres que concorreram ou assumiram mandatos, já sofreram algum tipo de violência política, desde a psicológica, passando pela física, até a sexual, algumas das quais de domínio público como é o caso da agressão verbal sofrida pela deputada Federal pelo Rio Grande do Sul Maria do Rosário; a agressão física sofrida pela vereadora da Cidade de Bela Vista no Mato Grosso do Sul, Fabrízia Tonico e o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco.

Recentemente constatamos dois casos típicos de violência política de gênero, um no Brasil e outro no exterior, sim a violência política de gênero não atinge apenas as brasileiras, ela é global e atinge mulheres de todas as nacionalidades. O primeiro episódio envolveu a primeira ministra da Comissão Europeia Ursula Gertruds von der Leyen, a primeira mulher a ocupar esse cargo, que em visita a Turquia juntamente com o presidente do Conselho Europeu, foi constrangida, ao ter sua presença, literalmente ignorada, tendo sido deixada em pé e à margem da reunião. Só havia uma cadeira ao lado do presidente da Turquia que foi destinada e ocupada, sem o menor acanhamento, pelo presidente do Conselho Europeu. Sem um lugar para ocupar e, visivelmente incrédula com o que estava vivendo, a primeira ministra teve que se sentar em um “sofazinho”, à margem das cadeiras e numa posição inferior à dos dois líderes, quando o cargo que ela ocupa requer o mesmo protocolo dispensado aos líderes do sexo masculino.

A segunda situação recente ocorreu no Brasil, o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro postou numa rede social a seguinte frase “Parece, mas não é a gaiola das loucas, são só as pessoas portadoras de vagina na CCJ, sendo levadas a loucura (…)” num rompante de desrespeito público, não só às parlamentares, mas às mulheres em geral.

O desrespeito, a ridicularização e a objetificação de mulheres, fazem parte de um ciclo de violência política enfrentado por aquelas que ousam desafiar o preconceito, às vezes velado, mas na maioria das vezes explícito, como no caso da fala do referido deputado.

É muito comum, mas não deve ser normalizado, homens taxarem mulheres de loucas, histéricas, com o objetivo de deslegitimar suas ações, falas e até silenciá-las, sobretudo quando elas avançam e ocupam posições de destaque em espaços antes ocupados apenas por eles, como é o caso da política.

O mesmo preconceito e violência política de gênero que Leolinda enfrentou antes do século passado, muitas mulheres continuam enfrentando em pleno século XXI, são situações vexatórias, de exposição moral, questionamentos de sua capacidade intelectual de ser e estar em determinados espaços de poder. Na visão de alguns, a mulher é muito bem vinda em qualquer espaço, desde que não ultrapasse a condição de coadjuvante. A tentativa de inibir e constranger mulheres a conformarem-se com a ideia de fragilidade e incapacidade para a prática de determinadas atividades e assunção a alguns postos e cargos, continua arraigada na sociedade, e vez por outra, são escancaradas em frases, atos e fatos, como no caso das situações algures citadas.

A resposta aos dois episódios foi imediata, a imprensa mundial noticiou o caso de machismo em relação a primeira Ministra da Comissão Europeia, assim como várias lideranças declararam apoio a mesma e repúdio ao ocorrido. No Brasil, da mesma forma, o ato de violência política de gênero praticada pelo mencionado deputado, teve ampla divulgação na imprensa, com repercussão negativa nas redes e movimentos sociais, culminando com a decisão de parte da bancada feminina no Congresso, em representar contra o deputado federal.

A violência política de gênero, ao invés de abrandar, com o tempo, cresce na mesma proporção que cresce o engajamento e a busca feminina por representatividade na política. Continua sendo comum às investidas preconceituosas de achincalhamento à honra das mulheres, mas jamais devem ser encaradas como normal. Essa tentativa, histórica, de silenciamento que se materializa por meio de estereótipos, xingamentos e adjetivos quase sempre relacionados a padrões estéticos e emocionais, têm sido utilizados como forma de evitar o envolvimento e até promover o afastamento das mulheres do ambiente político.

No entanto, são mais de cem anos de luta e resistência, a história que está sendo escrita demonstra que as mulheres têm persistido, bravamente, e avançam cada vez mais, num percurso que iniciou a passos lentos, mas segue em ritmo acelerado e sem nenhuma possibilidade de retrocesso.

Da Redação: 

Aparecida Veras para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia 

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