Portal Voz Amazônica

ZÉ TRIPA DO BOI

Homem de uma sensibilidade enfermiça,

Zé Tripa sofria de todas as dores do mundo.

De uma timidez profunda, corpo franzino,

Voz afônica, rosto cadavérico, queixo fino.

Zé tripa apenas sabia sentir o que sentia.

De olfato privilegiado, abstraía das palavras

a essência, aroma, nuances e protuberâncias.

Seu choro era naturalmente contido, chorava

só por dentro, onde sufocavam-lhe lutos invernais.

Tinha no rosto a perplexidade. Sorrir? Jamais!

Era versado em línguas do escuro silêncio.

Não se encaixava neste mundo turbulento,

pleno de ganância humana, egoísmo, sofrimento…

Era como se uma enigmática Mãe do Corpo

ocupasse os recônditos de sua branca alma

com ânsia de vociferar infinito desgosto

vivido neste mundo por seu esquálido corpo…

Por onde passava, absorvia cores fúnebres

E, noite adentro, as ruminava até cair em sopor.

Não era um sono manso, era um peregrinar

constante, denso de enigmas… avassalador.

 

Certo dia, Zé Tripa, decidiu mudar-se de mundo,

cansou-se de ser matéria lassa, sem asa, sem graça.

Mergulhou nas escuras águas do lago Curupira,

lugar encantado, onde o vento não sopra, assobia.

E naquelas entranhas encontrou lendário cosmos,

sentiu-se no aconchego de um útero materno.

Sob a luz de lamparina, reconheceu os entes

daquele encantado universo profundo…

Iara, a mãe-d’água, lhe sorriu encantos.

E doce hálito de flores foi-se espalhando…

Zé Tripa, embriagado de amor, sorrisos

lhe saltaram da boca como nunca antes

e dois fachos de luz reluziam seu semblante.

Iara o tocou a fronte e, com voz passarinha,

maviosa, passarinhou em antiga língua Tapiba:

“Branca alma para tão maléfico quebranto!

Um ser flor com sina de esponja no mundo!”

 

Entra Boitatá, vestida de aparente paz réptil,

e aproxima-se trazendo um pequeno ramo

de sensitiva maria fecha a porta para livrá-lo

com profana reza de terrível mau-olhado.

E para encerrar misterioso ritual de cura,

deitaram Zé numa escama da dona Boiúna

e Tucuxi lhe aplicou poderoso unguento.

Ao despertar-se leve, Zé sentia-se curado

e disposto a viver sem ter nenhum porquê:

“É, pois é. O encanto mora do lado de dentro.

Do de fora, uma panela de pressão fervendo.

O equilíbrio é segredo para mariscar manso. É.”

Disse em olhar conivente com o Boto namorador.

 

Em assembleia, optaram os encantados entes

por enviar Zé Tripa de volta à Velha Ega.

E de pronto viu-se ele já lá no porto de Tefé!

De pé, com olhar fixo numa pedra-pomes

que boiava ali pela beira do rio, auspiciou:

“Quem diria que já foi espuma?!… é…

Agora é rocha esponjosa! É… Pois é.

A força do invisível traz poderosa cura!”

 

Subiu aquela íngreme e custosa ladeira

e foi dar na municipal e Tupeba feira.

Seguiu e, ainda trôpego, chegou à praça.

A da Matriz, cujo Cristo de coração sagrado,

pela imoral cúria da res publica foi confiscado.

Com Moreno-folclórico aceno, saudou Sta.Teresa

que assistia à missa atrás do altar da igreja.

E de repente, já estava na rua Getúlio!

Ouviu o rufar de tambores e muito murmúrio…

Chegou até a Sevalho, atraído pela muvuca.

E o entardecer já havia feito no céu a faxina;

acendido os noturnos vaga-lumes e estendido

no varal o manto azul escuro cheio de estrelas.

 

Zé sentiu um arrepio dançante e envolvente.

Apressou o passo e entrou na roda-dança,

ao som dos maracás, dois pra lá, dois pra cá!

Tinha os olhos plenos de verde-esperança…

Quando irrompe uma voz: “Parou! Parou!

Não se pode ensaiar! O Tripa do boi faltou!”

Salta rindo no centro da roda: “Prazer, Zé Tripa!”

Vaquejada rufa os tambores, maracás se agitam

E aquele boi de pano ganha vida de mansinho…

Todos se deixam levar pelo gingado do boizinho

e cantam em coro no compasso alegre do Bumbá:

“Lá vai, lá vai, lá vai! Queremos ver!

Lá vai meu Boi Jitinho fazendo a terra tremer!”

 

E uma voz sussurra suave e sibilina dentro

de Zé Tripa, talvez a da Boiúna que passou

a habitar suas já refeitas entranhas:

“Vai, Zé! Vai ser Tripa pela vida!

Harmonize-se com as dores do mundo,

reinvente-se e desafie sua sina!”

E Zé foi, num foi? Sim, foi.

Foi brincar de boi, o Zé Tripa do Boi!

(CORTEZÃO, B. Marta. “Banzeiro Manso”. Gramado (RS): Porto de Lenha, 2017, p.194).

Da Redação:

Marta Cortezão para o Portal Voz Amazônica e para a Rádio Cultural da Amazônia

 

você pode gostar também
2 Comentários
  1. Vania Diz

    Marta Cortezao nos deixa a marca das suas raízes, o respeito pela vivência rica. Dá vontade de correr para o Amazonas! Parabéns!

  2. Marta Cortezão Diz

    Vania querida, não sabe o quanto me alegram suas palavras!! Gratidão imensa.♥️😘♥️

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.